Mercados emergentes: esperar que os fundamentais mudem ou aceitar as idiossincrasias?


Sair ou entrar em dívida dos mercados emergentes? Talvez esta seja uma daquelas perguntas para um milhão de euros atualmente na área do investimento, e que ninguém consegue responder da forma mais assertiva. Eugene Choi, client portfolio manager da equipa de gestão de dívida de mercados emergentes (ME) e Patrick Zweifel, chief economist, ambos da Pictet Asset Management, obviamente que não “embarcam” nesse tipo de dicotomia, e num encontro com clientes em Lisboa, quiseram fazer mais do que responder a essa curiosidade. Numa conferência subordinada ao tema “Renda fixa emergente – estratégia & Perspetivas” muitas foram as ideias apresentadas por ambos os especialistas neste tipo de ativo e região. 

Foi com um outlook para os mercados emergentes, mas também com uma outra pergunta, que Patrick Zweifel introduziu a sua apresentação. “São as moedas dos mercados emergentes uma pechincha?”, lançou ao público, respondendo de imediato. A resposta mais curta, diz o profissional, será “sim, são”, e servirá aos investidores de longo prazo, porque “estas divisas continuam a ser muito atrativas e a possuir uma yield muito interessante”. Para os investidores de curto prazo, por outro lado, a resposta é naturalmente menos positiva, porque esta “yield acarreta muitas incertezas em determinados aspectos”. 

Factores decisivos na evolução dos ME

É neste sentido que “desenha” um quadro geral para os próximos 12 meses nesta região, para a qual vê três principais ‘drivers’. “Em primeiro lugar esperamos que a economia global recupere face aos últimos quatro anos, especialmente por causa do impacto dos baixos preços da energia”, mas também por via das “políticas muito acomodatícias dos bancos centrais”. Num segundo ponto esperam que “o ciclo de negócio dos mercados emergentes se mantenha dual”, ou seja, dividido entre países ligados à manufactura, por um lado, enquanto no outro espectro estão os exportadores de commodities. Por fim, relativamente às moedas emergentes, acredita que estas possam “valorizar-se no longo prazo caso sejam alcançadas três condições”: o nível de negociação global melhore gradualmente, se virmos uma recuperação dos níveis de transações tanto na China como nos EUA, e por fim, se existir um sentimento mais positivo em relação aos ME.

Relativamente à dualidade referida anteriormente Patrick concretizou que os países manufactureiros entre os mercados emergentes “foram conseguindo manter a inflação abaixo dos targets, o que lhes permitiu cortar as taxas de juro”, ao passo que os “países exportadores de commodities tiveram que elevar as taxas de forma a evitar que as expectativas sobre a inflação aumentassem”. Um ponto importante, e de grande monitorização da equipa daqui para frente será perceber “se caso as exportações em termos globais recuperarem, se tal factor terá potencial para fazer valorizar as moedas dos mercados emergentes”. 

Fundamentais dos ME têm-se mantido sempre fracos

Eugene Choi integra na Pictet uma equipa que complementa a abordagem top down, com a visão bottom-up. “De forma a maximizar oportunidades nesta área nós fazemos a gestão das taxas de juro e das divisas de forma verdadeiramente independente”, começou por referir. 

No incontornável assunto da subida das taxas de juro pela Fed – que naturalmente afecta especialmente a dívida de mercados emergentes – Eugene acredita que foram sendo emitidos os sinais que dão conta da subida já em dezembro. Contudo, mais evidente do que isso, é “a grande dependência dos dados” demonstrada pela Reserva Federal.  “Temos visto as treasuries a surpreender pela positiva e o preço do petróleo - depois do grande declínio do ano passado - a recuperar ligeiramente”, salienta. Para lá desta incerteza vinda dos mercados globais, uma coisa pelo menos tem sido consistente para os ME: “infelizmente esta região tem mostrado continuamente a sua fraqueza e os fundamentais têm-se mantido debilitados”

Tal debilidade é visível principalmente ao nível da dívida denominada em moeda local, ao passo que as notícias melhoram quando se fala da dívida denominada em moeda forte. “Neste âmbito a recuperação tem sido muito resiliente, e em outubro a dívida estava próxima dos 3%, estando muito mais diversificada em termos de risco, comparativamente com algum tempo atrás”, adianta. Contudo, neste universo da dívida denominada em moeda forte existem histórias menos positivas de países sem bons resultados. “Falamos de um conjunto de países com muitas idiossincrasias”, remata, referindo que se por um lado “têm sido ajudados pela melhoria das condições globais”, por  outro continuam prejudicados “por não terem recuperado ainda os seus fundamentais de crédito”. 

Os fundos da casa 

No que toca à performance do Pictet Emerging Local Curency Debt, Choi evidencia que por causa do ‘rally’ de outubro subponderaram nessa altura algumas moedas. Contudo, voltaram a assumir o risco daí advindo porque acreditam “que o rally de outubro teve muito a ver com os fundamentais técnicos”. Concretamente sobre o renminbi chinês, salientam que as “posições em carteira têm sido reduzidas dramaticamente”. 

No que toca ao fundo Pictet Global Emerging (USD) Debt Fund, a equipa reflete no portfólio algumas das idiossincrasias já mencionadas atrás. “Tentamos explorar oportunidades nos países com um beta mais elevado”, explica. 

Em jeito de conclusão, a profissional acabou por voltar à questão “para um milhão de euros”. “Se os investidores escolherem ficar investidos nos ME, a longo prazo, verão a recompensa. Bem sabemos que existe muita turbulência, mas acreditamos que existirá uma recuperação. Ainda existem muitos benefícios nos mercados emergentes”, reiterou.

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