Megatendências de investimento: o turismo chinês


Olhos rasgados, cabelo negro, tez amarela e máquina fotográfica ao pescoço. Não. Não falamos de japoneses. O próximo boom de turismo é proveniente da China. Só no ano passado cerca de 110 milhões de chineses viajaram até ao estrangeiro, sendo esta uma soma que pode duplicar durante os próximos cinco anos de acordo com as previsões. Vai ser uma tendência tão importante e transversal que algumas das gestoras de fundos já começam a olhar para ela como uma ideia de investimento de longo prazo. Uma dessas entidades é a Fidelity Worlwide Investement, que dedica a esta nova dinâmica uma análise profunda, falando das oportunidades que aqui encontra.

Segundo a OMT (Organização Mundial de Turismo), quase 10% da força de trabalho mundial trabalha de forma direta ou indireta no sector do turismo e viagens, o que representa cerca de 9% do PIB Mundial. “Por via do seu crescimento praticamente ininterrupto desde 1950, o sector turístico conferiu enormes oportunidades aos investidores, e vai continuar a fazê-lo”, referem da Fidelity. E apontam alguns dados: por exemplo só em 2014 realizaram-se 1.100 milhões de viagens a outros países, e prevê-se que esta soma alcance os 1.800 milhões em 2030.

A questão, dizem da Fidelity, é que a China vai contribuir em grande medida para o crescimento turístico: “Graças ao auge de uma classe média com salários mais altos e mais férias anuais remuneradas, o acesso mais rápido aos vistos e à queda dos preços dos voos, prevê-se que o turismo emissor da China aumente de 110 milhões de passageiros no ano passado para mais de 200 milhões em 2020. Esta soma é um cálculo conservador, já que na edição de  2013 do Baoa Forum o presidente Xi Jinpinga assinalou que se poderia alcançar os 400 milhões em 2019”.

Porque chega agora o boom turístico?

“As experiências vividas noutras partes da Ásia mostram que quando se alcança um PIB per capita de 8.000 dólares, é desencadeado um crescimento explosivo do turismo emissor”, indicam os especialistas da Fidelity, que acrescentam que 10 províncias chinesas alcançaram este patamar em 2012, prevendo-se que outras 17 o façam até 2020. No entanto, embora a China seja o primeiro país por turismo emissor, da gestora constatam que o potencial de desenvolvimento desta tendência é muito grande, já que apenas 5% da população chinesa tem passaporte. “O governo chinês considera que o turismo emissor, o turismo receptor  e o turismo interior são um motor chave de crescimento para o sector dos serviços, tendo sido fixado como objetivo que o turismo represente 2,5% do PIB em 2015”, assinalam os especialistas, que chegam a concluir que “parece cada vez mais plausível que, brevemente, os chineses sejam aquilo que a China mais exporta”.

Só em 2014 os turistas chineses gastaram 130.0000 milhões de dólares durante as suas viagens, prevendo-se que esta soma aumente até aos 246.000 milhões de dólares. Na verdade a China já é o primeiro país em termos de despesas turísticas; superou os EUA e o líder anterior, a Alemanha, em 2012. Em 2014 converteram-se nos turistas que mais gastam em Espanha, com 31% das receitas de turismo do país.

Ideias de investimento

Os especialistas da Fidelity identificaram três grandes sectores que podem ser favorecidos pelo crescente interesse dos cidadãos chineses por causa das viagens que fazem a outros países e pelo conhecimento de outras culturas. O primeiro dos sectores é o comércio, especialmente o de bens de luxo: “Os compradores chineses são responsáveis por quase um terço das vendas de produtos de luxo, um mercado avaliado em 275.000 milhões de dólares. Mais de metade das suas compras de artigos de luxo realizam-se no estrangeiro, já que estes produtos (sobretudo cosméticos) estão submetidos a impostos muito elevados na China.

Da entidade constatam, por outro, lado que “o segmento das lojas livres de impostos (duty free) está a passar por um momento especialmente favorável, estando a crescer a uma taxa anual composta de 7% em todo o mundo desde 2000, e de 21% na Ásia”. O mais vendido neste tipo de lojas que se situam em aeroportos são produtos de luxo e fragâncias; segundo dados da gestora Asia-Pacifico representam 40% das vendas neste tipo de loja em todo o mundo devido em grande parte aos turistas chineses.

“Os compradores chineses constituem um terço do mercado de luxo, pelo que todas as empresas europeias de produtos de luxo vão beneficiar do aumento dos turistas chineses. Empresas de cosméticos como a Estée Lauder e L’Oréal, com uma importante presença comercial em estações e aeroportos, estão bem posicionadas. Os consumidores chineses também costumam comprar produtos infantis, tais como leites de fórmula e fraldas, já que não confiam nos produtos do país de origem”, explica a gestora Aneta Wynimko.

O segundo tema ver com jogo. Na Fidelity partem da conclusão de que dos 61.000 milhões de dólares em receitas brutas por jogos, obtidas em toda a Ásia, cerca de 70% é dinheiro chinês. “Macao é desde há muitos anos, a Meca do jogo para os turistas chineses, mas a luta das autoridades contra a corrupção, fez com que alguns dos casinos da cidade tenham dificuldades em continuar a crescer. As receitas caíram em Macao pela primeira vez desde o ano passado, enquanto que os Casinos concorrentes da Coreia e das Filipinas registaram crescimentos nos lucros, de 16% e 33%, respetivamente, por causa do aumento dos turistas chineses”, explicam os especialistas da entidade, que também sublinham a presença de novos complexos integrados com casino, que são projetados no Camboja, Vietname e Saipã. Uma prova da “mina” que este segmento representa é que, segundo contam os especialistas, “aos grandes apostadores são oferecidos voos (em alguns casos em jatos privados), alojamento gratuito e visitas com guias que falam mandarim”.

O terceiro tema está relacionado com o transporte. A organização Internacional do Transporte Aéreo (IATA) prevê que a China superará os EUA em 2030 como o maior mercado de transporte aéreo de passageiros do mundo. No entanto, a atualidade do país conta com um dos volume de aeroportos por milhão de habitantes mais baixo do mundo (0,13 face à média de 0,39 nos países emergentes da Ásia). Por isso da Fidelity propõe como ideia de investimento fixar-se em companhias aéreas chinesas como a China Southern (que geralmente transporta mais turistas) e a Air China (a companhia que mais passageiros transporta na Europa e na América do Norte), que, para além disso, vão beneficiar consideravelmente da redução de requisitos em países como EUA para a obtenção de vistos.

As empresas deste sector também estão a beneficiar atualmente da queda dos preços do crude, já que o combustível representa cerca de 30% dos seus custos de exploração das linhas aéreas. A queda desta despesa “vai-lhes permitir oferecer tarifas mais baratas e mais destinos”, segundo os autores do relatório.

A última ideia de investimento centra-se no sector da hotelaria. “Os turistas chineses podem ter gostos muito concretos e necessidades diferentes de outros turistas. As cadeias hoteleiras internacionais puseram mãos à obra para adaptar as suas ofertas com o objetivo de atrair estes clientes”, assinalam da Fidelity. Dão como exemplo a decisão da cadeia Hilton Worldwide de lançar em 2012 o seu programa Hilton Huayang (Bem vindos a Hilton) para atender às necessidades especiais dos turistas chineses. Das 540 unidades hoteleiras da empresa (tanto na China como em todo o mundo), 48 fazem parte do programa e dão emprego a cozinheiros chineses e pessoas que falam mandarim. Ao gosto chinês foram ainda adaptados o design das casas, das habitações, dos serviços e das instalações, sendo esta uma tendência que também se observa em todos os grupos hoteleiros de todo o mundo”, concluem da entidade.                            

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