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Martin Feldstein (Harvard): “A chave é não ouvir as palavras de Trump”


A cidade era Paris. O lugar, o Carrossel de Louvre. Ali teve lugar o Fórum Mundial de Investimentos da Amundi, centrado este ano nas tendências disruptivas e em quais serão as principais alterações económicas e sociais que influenciarão o ambiente económico a médio prazo e, por consequência, a alocação de ativos.

Entre os oradores destacados encontrava-se o professor de Economia da Universidade de Harvard – Martin Feldstein, que iniciou o seu discurso explicando aos ouvintes como se deve interpretar o presidente norte americano, Donald Trump. “A chave para entender a administração de Trump é ignorar os seus tweets e ter atenção aos seus atos”, aponta o professor. “Fixar-se no que ele faz, especialmente na política internacional, e não no que ele diz, é menos alarmante”. “Assim como muitos americanos, também encaro as palavras de Trump como muito pouco presidenciais”, sublinha. “Mas importa ter em conta que ele não fala para nós, mas sim para as suas bases”.

E isso também acontece para diferenciar o Trump candidato do Trump presidente. “Os orçamentos de um candidato à presidência terminam quando chega ao Congresso, já que é o Congresso que decide a política fiscal e orçamental”. O que acontece é que “na política nacional são as Câmaras que tomam decisões”, enquanto que na política internacional, continua Feldstein, “Trump formou os seus gabinetes com pessoas muito competentes”.

O salto entre o 'eu candidato' e o 'eu presidente' reflete-se nas diferentes ações que a administração tem tomado, existindo uma demarcação do discurso de Trump na campanha eleitoral, e nas suas relações, por exemplo com a China ou com organismos como a NATO ou a NAFTA. “Durante a campanha, Trump disse que a NATO era uma organização inútil, mas quando se tornou presidente, elogiou a organização e apoiou o aumento de gastos em defesa da Europa”. E, apesar do seu duro discurso contra o México, recentemente negociou um acordo de açúcar, qualificando-o como muito bom para ambas as partes. “Os Tratados de Livre Comércio considerados desastrosos por Trump, são agora renegociações com critérios razoáveis”, esclarece o professor. A China, o Japão e a Coreia do Norte são outros exemplos da mudança da campanha eleitoral para a vida real.

Economia, mercados e Fed

Além da esfera política, fala de “uma situação económica muito boa” – perante um mercado de trabalho que está além do pleno emprego e níveis de inflação estáveis -, “mas também muito frágil devido aos elevados preços dos ativos”. “Se olharmos para as valorizações do S&P, está cerca de 7% acima dos seus máximos”; isto a juntar a um cenário de baixas yields na dívida pública e ao crescimento dos preços imobiliários, alimentam uma possível correção dos mercados financeiros. E se isso acontecesse, iria arrastar a economia real, reduzindo o gasto do consumo e o investimento empresarial”.

O professor estende o cepticismo aos números reais de crescimento do PIB nos Estados Unidos, que aumentariam acima dos 4% se a forma de o medir fosse atualizada. “O progresso tecnológico exigirá a introdução de novas fontes de contabilização”, explica, “já que não tem em conta o valor de transações realizadas por serviços gratuitos como o Google, por exemplo”. “Há erros de medição no crescimento do PIB que levam a que o valor de 2% seja subestimado”.

Em termos de política monetária, o professor Feldstein sustenta que “as mudanças nas carteiras dos bancos centrais terão consequências que os mercados ainda não calcularam”. E embora “a Fed esteja claramente no início da normalização das taxas de juro”, sustenta que a instituição “deveria ter começado há dois anos”. No que toca ao futuro da Fed a partir de fevereiro, prevê que “Trump procurará alguém bastante diferente de Janet Yellen e Ben Bernanke”. “Não procurará nem um economista nem um professor, mas sim uma pessoa do mercado", refere. Arrisca ainda um nome de um possível sucessor de Yellen que encaixaria neste perfil: Gary Cohn.

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