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“Los Ronaldos”


Depois de termos assistido à final da Champions League e independentemente do valor de cada jogador que participou nessa partida, a figura central foi mais uma vez Cristiano Ronaldo. O grande mérito deste jogador português reside na sua capacidade de se superar, através do extraordinário esforço e dedicação constante. De facto, o que não deixa de ser impressionante é como aos 32 anos consegue disputar a liderança para melhor jogador do mundo, com jogadores mais novos e quiçá, que nasceram tecnicamente mais dotados.

O que faz um Ronaldo não é apenas o talento, nem tão pouco o contexto onde se exprime. O que o torna singular é a perseverança como enfrenta o seu dia a dia, que lhe permite potenciar ao máximo o seu talento e adaptar-se da melhor maneira a um contexto que se altera com a lei natural da vida. No fundo, o que ele nos transmite é que está ao nosso alcance e à dimensão de cada um, sermos todos uns “Ronaldos”.

Mas, para além de ser uma tarefa exigente, acresce o facto de que a natureza humana se esconde no beco das fragilidades. São muitos os automatismos de autopreservação que são acionados quando nos deparamos com o desconforto do comodismo de não atingirmos aquilo que sabemos que está intrinsecamente ao nosso alcance. Quando ficamos preguiçosamente aquém dos nossos objetivos, o nosso ego tem um problema em dar o devido valor àqueles que o conseguem fazer!

Esta limitação do ser humano tem simplesmente a ver com a dificuldade em lidar com o sucesso dos outros, que já sabiamente resumia Oscar Wilde: “o ser humano tem uma enorme compaixão com o sofrimento dos outros, mas uma imensa dificuldade em lidar com o sucesso alheio”.

A determinação de Mario Draghi faz também dele um “Ronaldo”, tanto mais que a sua figura nunca foi consensual entre os seus pares e algum do poder político. O papel do presidente do BCE tem sido ímpar, não só pela sua tenacidade como enfrentou a crise, mas, sobretudo pela forma como discretamente tem arrancado os consensos políticos, que lhe permitiram utilizar instrumentos de política monetária não convencionais para combater a grave crise política e económica Europeia.

Recentemente numa conferência em Madrid, Mario Draghi fez uma análise detalhada sobre o papel da política monetária e um dos principais pontos a retirar foi que, para já mostrou-se pouco inclinado para alterar a ordem sequencial dos estímulos, ou seja, primeiro reduzir o programa de compras e só depois mexer nas taxas de juro. Um dos argumentos proferidos foi que os efeitos secundários do programa de compra de ativos são maiores que as implicações das taxas de juro negativas, o que parece ser consensual, uma vez que, o Quantitative Easing extravasa em muito o âmbito da política monetária. O que este “Ronaldo Banqueiro” não referiu foi que atualmente o papel de taxas de juro negativas, resume-se praticamente a um instrumento de política cambial. Com uma valorização de mais de 8% do euro face ao dólar desde o princípio do ano, é natural que este "Ronaldo” para já resfrie os ânimos e jogue à defesa.

No entanto, a manutenção da descida do desemprego, com 9,3% em abril e a forte dinâmica da atividade industrial e dos serviços em maio vai obrigar o BCE nesta quinta feira a adaptar o seu discurso à atual realidade económica, que é substancialmente diferente daquela que tínhamos há uns tempos atrás. Basta pensar que, ainda há alguns meses discutíamos os riscos de deflação e de recessão, enquanto que hoje discutimos se a inflação vai ser 1% ou 2% e se o crescimento chega a 2%...

Quem continua a vestir a camisola do CR7 e não está disposta a ser apanhada desprevenida, não desperdiçando uma oportunidade para marcar golos é a Reserva Federal Americana. Apesar da FED se confrontar com números pouco vibrantes de criação de emprego, mas firmes no desenrolar da atividade económica, continua determinada em não baixar a guarda. Afinal a FED ainda tem bem presente os riscos de criação de bolhas especulativas quando as condições monetárias estão excessivamente relaxadas. Numa altura em que a Federal Housing Finance Agency anuncia que os preços das casas superam claramente os valores de pré-crise, não é altura de jogar à defesa.

Por cá, também ninguém ficou indiferente ao “Ronaldo da ECOFIN”, sobretudo porque o elogio a Mário Centeno, veio do ministro das finanças alemão, Wolfgang Schäuble, que ainda há pouco tempo, manifestava o seu desconforto com o rumo que as finanças levavam em Portugal. Mas na verdade, o “Ronaldo da ECOFIN” são todos os portugueses que se confrontam com um sistema judicial muitas vezes ineficaz, com uma carga fiscal disruptiva, e que ainda assim, continuam a investir e a lutar pelo seu país.

Com uma dívida pública que continua a subir e que em final de abril se fixou em 247 mil milhões de euros, não é altura para pensar que não é necessário muito esforço e dedicação pela frente. Se não andarmos focados, ”cantarás las noches largas como serpientes, dormirás debajo de la cama otra vez", tal como cantavam "Los Ronaldos", um famoso grupo rock espanhol da década de oitenta!

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