Investimentos Alternativos


Ao explicar investimentos alternativos a potenciais investidores, designadamente o que as diferencia das demais – o uso de derivados, o uso de alavancagem e do long/short, os investimentos macro, o elevado peso de trades de oportunidade, a abordagem técnica e sistemática, a busca do retorno absoluto, o afastamento de qualquer benchmark a não ser a mera comparação com os pares para estratégias do mesmo tipo - a maioria dos investidores percebe que não se trata de estratégias convencionais e que, portanto, não devem ser medidas recorrendo a métodos tradicionais. Pela descrição do processo facilmente se infere que a comparação com qualquer benchmark bolsista é um exercício erróneo, pelo menos num curto prazo de um ano ou dois.

Então como se devem enquadrar os investimentos alternativos?  

É muito importante ter em conta o horizonte temporal do investimento: digamos que, no mínimo, 5 anos. Fazer avaliações periódicas é desejável e salutar mas, se não forem bem feitas, também podem resultar em precipitações intuitivas e estas em perdas de dinheiro ou de oportunidades. A definição do horizonte temporal de 5 anos não surge por acaso e, neste aspeto, estes investimentos não se diferenciam dos clássicos. Há várias razões para definir um prazo tão dilatado: 1) aumenta a probabilidade de acertar no objetivo absoluto; 2) aumenta a probabilidade de aferição da qualidade da estratégia face aos pares; 3) aumenta a probabilidade de aferição da proficiência de todas as opções estratégicas, designadamente a opção estratégica entre uma alternativa autoconstruída (orientada para um objetivo específico e absoluto) e uma alternativa clássica que segue os vulgares mecanismos médios, designadamente o processo de benchmarking (ser melhor que a média arbitrariamente pré-definida pela indústria de gestão de ativos). Por outras palavras, 5 anos é um tempo razoável para definir se um investidor ou gestor é bom ou mau. Será assim? Na minha opinião, é um tempo suficiente para nos dar fortes indícios mas por vezes não chega. Por exemplo, os últimos 5 anos foram extraordinários para os índices acionistas, especialmente o índice americano S&P500. Quererá isto dizer que um gestor ou investidor que tenha obtido altas rentabilidades é extraordinário, ou será apenas normal ao ter entrado com o dinheiro certo na altura certa? Neste caso, a prova só virá com aquilo que não se viu – um ou dois anos negativos (muito negativos), um forte bear market. Como disse Warren Buffet: “Quando a maré baixa é que se vê quem nada nu.”

Contudo, a cegueira criada pelo efeito de aura induzido por estes últimos anos de bom desempenho num (ou será? “por causa de um”) bom contexto de mercados, juntamente com um enviesamento psicológico que nos leva a pensar que só existe o que se vê, podem, em conjunto, conduzir a decisões erradas. O tempo suficiente para um investidor ou gestor avaliar a qualidade global das suas opções deverá abarcar um conjunto alargado de eventos potencialmente adversos. Consequentemente, ou temos uma crença inabalável (e potencialmente desastrosa!) de que o que aconteceu recentemente vai continuar a repetir-se ad aeternum, ou então, antes de apostar num método infalível, gestor ou estratégia, devemos recuar pelo menos a 2008 e ver o que é que esse método, gestor ou estratégia produziram nesse contexto. Para além disso, tal como aparece em qualquer apresentação de fundos, relembro que rentabilidades passadas não são garantia de rentabilidades futuras. De facto, embora as rentabilidades passadas sejam uma boa indicação partindo do princípio que analisamos bem a história, elas não nos dizem nada sobre os processos e sobre a dinâmica dos mesmos. O efeito de aura afeta especialmente os recentemente bem-sucedidos e leva-os a desleixarem-se da mesma forma que os mal sucedidos tendem a refinar e melhorar processos. Consequentemente, os bons resultados passados, especialmente os do passado recente dentro de um contexto específico, podem ser catalisadores de laxismo quer de quem gere, quer de quem avalia a gestão. Por sua vez, os maus resultados recentes também podem ser catalisadores de mudanças profundas no sentido positivo. Portanto, há que avaliar os resultados, mas acima de tudo a dinâmica dos processos porque é isso que determinará, a par da Sorte e do Azar, os resultados futuros.

Ouriços, Raposas e Consumidores de Serviços Financeiros

No mundo dos investimentos há dois tipos de profissionais: os “ouriços” que têm uma teoria para tudo (uma boa história causal), sabem tudo e têm obviamente sempre razão (ilusão da perícia); e as “raposas” que veem a arena financeira como algo muito mais complexo, uma interação de diferentes agentes e perceções e que sabem que não têm que ter sempre razão e que, para além disso, há muitos fatores aleatórios em jogo: “O desconhecido desconhecido”. Eu gosto das raposas.

Ao nível dos consumidores de serviços financeiros há um enviesamento muito vulgar que é a perceção retrospetiva. Em palavras simples, a perceção retrospetiva é a sensação de “sapiência óbvia” adquirida após ocorrência dos acontecimentos e resume-se à frase: “Eu sabia…”. Este enviesamento tem duas consequências negativas para o próprio consumidor de serviços financeiros: valoriza o resultado em vez do processo, ignorando os riscos ocultos e admitindo ingenuamente que só existe o que se vê; pode influenciar a qualidade da gestão do profissional ao reduzi-la a uma mera gestão administrativa em torno de um benchmark burocraticamente definido, para “não correr riscos comerciais”.       

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