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Impactos nas classes de ativos, expectativas e muito mais: gestoras internacionais analisam subida de taxas


A subida das taxas por parte da Fed já estava mais do que considerada nos preços pelos mercados. Janet Yellen, esta quarta-feira, não desiludiu. A presidente da Reserva Federal norte-americana não desapantou e subiu o preço do dinheiro para um intervalo entre os 0,25% e os 0,50%. Apesar da previsibilidade da decisão ser grande, ainda assim, alguns profissionais da indústria temiam uma decisão semelhante à de setembro passado. Era o caso de Luke Bartholomew, gestor da Aberdeen,  que comenta precisamente que “a Fed começou finalmente elevar as taxas de juro. Seria um grande erro de comunicação se a Fed não tivesse começado a subir as taxas”. Na opinião do profissional a incerteza, agora, está “no ritmo de subida das taxas no ano que vem”, prossegue. Para o profissional “a Fed está a sinalizar quatro subidas em 2016, o que é significativamente mais do que o esperado pelo mercado”.

Yellen deixou em cima da mesa alguma “indefinição” precisamente sobre o ritmo de subidas, sendo referido no comunicado oficial que “a taxa de juro federal permanecerá, durante algum tempo, abaixo dos níveis esperados para se impor posteriormente no longo prazo”. Ora, da Fidelity International, Stephanie Sutton, directora de investimentos da entidade, assinala precisamente que “embora pareça que se desconta quase totalmente um ritmo gradual de subidas, qualquer aceleração desse ritmo poderá provocar incerteza e volatilidade”. Na opinião da especialista a subida é uma espécie de faca de dois gumes: embora venha “dar mais enfâse à boa saúde da economia norte-americana”, por outro lado “torna mais pesado o fardo da dívida tanto para as famílias como para as empresas”.

Para Ken Taubes, diretor de investimentos de EUA da Pioneer Investments, o que interessa verdadeiramente é que “a Reserva Federal voltou a centrar-se no crescimento dos EUA, no emprego e na inflação, em vez de olhar para o impacto das subidas de taxas apenas no crescimento económico global”. Taubes indica que “pode ser que o crescimento global tenha tocado no fundo, e que a decisão da Fed de alargar o ciclo de subidas possa reduzir o impacto negativo da subida, particularmente tendo em conta que as políticas monetárias acomodatícias a nível global deverão apoiar o crescimento e os mercados.

Para Keith Wade, economista chefe da Schroders, a primeira ação estava mais do que anunciada pelo que não deverão existir surpresas para os mercados; a questão agora está em perceber para onde é que se dirigem as taxas. “A declaração da Fed referiu que as subidas futuras dependerão dos dados macroeconómicos e que “as condições económicas apenas vão garantir subidas graduais nas taxas dos fundos federais”. Isto coincide com as declarações feitas anteriormente, embora ponha a tónica nas previsões atualizadas da Fed que acompanharam a declaração. A instituição mantém o seu compromisso com um ajuste gradual, mas o perigo reside em que, se se interpretar que estão a ser mais duros do que as baixíssimas expetativas que os mercados tinham forjado, o dólar valorizará e continuará pressionado pela baixa inflação. Desta forma, a normalização das taxas de juro poderá estancar-se à medida que a moeda desconte a política de ajuste da Fed”. 

Jim Leaviss, diretor de obrigações da M&G Investments, valorizou também positivamente  o discurso da presidente da Fed em que Janet Yellen referiu que “não pretende que este seja o começo de uma campanha de subida de taxas acelerada, embora continuem a ser flexíveis, e as taxas de juro apenas aumentarão de forma gradual. Tudo isto interessa, embora considerem que “existe, no final de contas, um risco de que o banco central necessite de aumentar as taxas mais rápido do que os mercados esperam atualmente”. Tal como outros profissionais, também Leaviss acredita que o ciclo de subidas acabará num nível inferior ao da média histórica por causa das “pressões estruturais na inflação e o elevado nível em que se situam os títulos de dívida corporativa e pública em muitas zonas do mundo”. 

Impacto nos mercados e nas classes de ativos 

Para as gestoras internacionais, a decisão da Fed pouco muda o cenário central que tinham delineado para o próximo ano. Da Deutsche AWM, o diretor de investimentos, Stefan Kreuzkamp, refere precisamente que “a subida de taxas em conjunto com as declarações ‘dovish’ do FOMC foram a base do nosso cenário de mercado para o próximo ano”. Assim, pouco muda no que definiram em termos estratégicos para 2016, e mostram-se positivos nas ações desenvolvidas, com a preferência a recair nas ações europeias e japonesas, figurando apenas depois o “favorecimento” das ações norte-americanas. No que toca aos sectores, serão, na opinião da casa, a tecnologia, o consumo cíclico e o sector financeiro, os mais beneficiados no novo ano.

Em termos gerais, a BlackRock vê com bons olhos a subida de taxas protagonizada pela Fed, e relembra, em tom de aviso, que “as taxas permanecem extremamente baixas, e continuarão assim durante algum tempo”. Por isso, no campo de preferências, mantêm um olhar positivo em ações europeias e japonesas face às obrigações, e  também em estratégias neutraus de mercado como é o caso das ações long/short e de crédito. 

Nas reacções imediatas à decisão, a casa alemã tem uma “postura” mais cautelosa. O diretor de investimentos acredita que não se deve “dar muita atenção aos movimentos” do curto prazo, “porque o provável é que reflitam mais o reposicionamento dos investidores, e a queda dos volumes de negociação por causa do período de Natal, do que uma revalorização fundamental sobre até onde se está a dirigir a economia dos EUA”.

Pouco consenso no ritmo de subidas das taxas

Contrariamente ao especialista da Aberdeen, o profissional do Deutsche AWM acredita que acontecerão apenas outras duas subidas. Outros, como Ralf Wiedenmann, diretor de análise económica da Vontobel AM, “apostam” em mais três subidas" para além da desta quarta-feira, sendo que ao cumprir-se este prognóstico “as obrigações soberanas com yields baixas ou até negativas serão aquelas que mais sofrerão, já que o cupão não proporciona nenhuma almofada que amortize a queda dos preços quando as yields aumentarem”. Também na Vontobel, por isso mesmo, a preferência por esta altura recai nas ações.

O diretor de investimentos do Deustsche AWM acrescenta que por esta altura a Fed ganhou uma espécie de função dupla: “A Fed controla agora duas ‘alavancas’ da política monetária: as taxas de juro e o ritmo a que muda a sua política de reinvestimento das obrigações que atingem o vencimento”. Importante é também frisar que o dinheiro presente no balanço da Fed passou dos 15.000 milhões de dólares em 2007 para 2,5 biliões na atualidade.

A este nível tinha falado recentemente Olivier de Larouzière, responsável de taxas de juro da Natixis AM (filial da Natixis Global AM): “O ponto chave está no balanço da Fed: os bancos não procuram liquidez porque haja em excesso, pelo que uma subida das taxas de juro não terá um impacto direto sobre a banca, mas sim sobre as mudanças que podem acontecer no balanço”, referia.

Daqui para a frente, a BlackRock tem em vista alguns cenários que podem tornar-se efetivos. Creem que os aumentos de volatilidade poderão continuar, tendo impacto especialmente no mundo emergente. “É provável que os mercados emergentes continuem sobre pressão, embora alguns ajustes já tenham ocorrido em antecipação da normalização das taxas”. O próprio mercado acionista entendem que pode vir a ser prejudicado, por causa da “apreciação do dólar e da estagnação dos lucros das empresas”. 

 

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