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Ideias e oportunidades nas duas principais classes de ativos após a decisão da Fed


Chova, troveje ou mantenha a Reserva Federal as taxas de juro em mínimos históricos, a verdade é que os investidores observam de forma cautelosa e constam eventuais oportunidades de investimento com preços atractivos. A decisão “dovish” da Fed depois de ter preparado os investidores durante a época estival para uma subida que aconteceria durante o presente mês de setembro provocou reacções negativas no mercado de ações: na sessão da passada sexta-feira, tanto as bolsas europeias como as norte-americanas assistiram a fechos em terreno negativo; na parte das obrigações, reduziram-se as taxas na maior parte destes títulos, entre os quais as bunds que registaram a sua maior queda desde julho. Também o petróleo retrocedeu, enquanto o ouro – conhecido como anti-dólar – brilhou com força perante a queda do “bilhete verde”. Agora, a grande pergunta é de que forma vão os mercados financeiros interpretar o último discurso de Janet Yellen e como se ajustarão os preços dos distintos ativos.

Ideias nas obrigações

Da Pioneer Investments, Tanguy Le Saout, responsável de obrigações europeias, comenta que “geralmente, uma decisão da Fed sobre as taxas de juro nos EUA terá menos impacto sobre o mercado de obrigações europeu do que sobre o norte-americano, mas dada a correlação entre os dois mercados, esperamos que as obrigações europeias mantenham a sua liderança face aos EUA, mas com menor evidência”. Declarando-se um otimista refere que “os spreads se alargaram na Europa durante o verão, devido às preocupações em torno da Grécia, o medo de uma subida das taxas de juro nos EUA, a ‘indigestão’ da oferta e um posicionamento longo por parte de muitos investidores”. No entanto, o ciclo de crédito continua a ser mais vantajoso para a Europa já que existe menor actividade de M&A do que nos EUA, as avaliações estão baratas e os investidores permanecem na busca de obrigações com maior rentabilidade e boa qualidade”. Por todos estes factores, considera que “os spreads se vão estabilizar nos níveis atuais”.

“É, então, evidente que a decisão da passada quinta-feira com Janet Yellen a dar um passo atrás, poderá beneficiar o mercado de obrigações, pelo menos no curto prazo. Contudo, a longo prazo é possível que o adiamento de uma subida das taxas de juro que se verificou neste momento pressuponha subidas mais bruscas no futuro”, comenta o gestor David Roberts, da Kames Capital. “Como temia esta decisão, no princípio da semana (passada) comprei obrigações do tesouro norte-americano a 5 anos, cujo preço tinha descido perante a possível subida das taxas”, acrescenta. Ao perceber que as dúvidas da Fed sobre a maior ou menor relevância de factores domésticos face aos externos podiam fomentar a volatilidade, optou por realizar mais-valias nesta posição na manhã de sexta-feira, “com a intenção de recomprar quando esses mesmos títulos registaram alguma debilidade”.

Cliff Corso, CEO para os EUA da Insight (parte da BNY Mellon IM) comenta que a Fed necessita subir astaxas de juro para contar com uma margem de manobra perante crises futuras. No entanto, considera igualmente importante “desenhar uma curva de taxas de juro muito mais plana para iniciar o caminho da normalização”. “A economia está mais alavancada nas maturidades intermédias e de longo prazo, mais do que na parte curta, pelo que manter a parte longa sob controlo é crítico num ciclo de subidas”, acrescenta. Corso afirma que “uma curva plana e taxas de juro mais elevadas não são factores negativos para os ativos de risco”. Justifica esta afirmação dizendo que dos últimos seis ciclos de subidas desde 1988, em cinco deles os ativos de risco registaram um bom comportamento ao longo do ciclo. “Acreditamos que enquanto as taxas de juro subirem pelas razões correctas, o cenário para os mercados de risco não é mau”, conclui.

Oportunidades nas ações

“Poucas vezes no passado se prestou tanta atenção às possíveis decisões da Fed no que toca às taxas de juro no curto prazo. Isso responde a uma sensação de vulnerabilidade nas bolsas e ao facto de estarem mais inquietas relativamente ao crescimento económico, especialmente na China e nos mercados emergentes”, explica Paras Anand, diretor de ações europeias da Fidelity Worldwide Investment.

O profissional acrescenta razões para a não tomada de decisões de forma precipitada. “Rara vez o mercado foi tão perturbado por acontecimentos que tinham tido oportunidade de serem analisados durante um longo período e, portante, o que se verificou foi um episódio de nervosismo similar ao que ocorreu nos mercados em 2013 aquando dos cortes automáticos na despesa pública norte-americana (o famoso sequestro fiscal)”.

Em segundo lugar, recorda que “para que uma presidenta da Fed inequivocamente propensa à expansão monetária pense em aumentar as taxas, deve haver confiança de que a economia entrou num período de forte crescimento e que a inflação está em direcção ascendente”, pelo que conclui que “do ponto de vista das empresas e investidores de longo prazo no mercado de ações, é difícil não ver esta situação como positiva”. Em terceiro lugar, considera que “tendo em vista o efeito desinflacionário da tecnologia em muitos sectores da economia, um aumento da taxa não indica necessariamente o início de um ciclo acelerado”.

Sobre os investidores  que preferem as ações europeias, o especialista indica que “o facto da economia norte-americana e o valor relativo do dólar continuarem a mostrar sinais de fortalecimento significa que estamos perante uma evolução positiva”, dada a exposição das empresas europeias aos EUA. O aumento do poder de compra das empresas norte-americanas poderá originar uma nova vaga de M&A.

María Municchi, especialista de investimentos da equipa de multiativos da M&G Investments, recorda aos investidores que tentar adivinhar o rumo futuro da política monetária dos EUA “não só é fútil, como muito possivelmente perigoso”, no sentido e que “sobrestimar a força de uma relação entre uma acção política e condições económicas genuínas poderá afastar-nos dos factores fundamentais”. Municchi incide na importância de vigiar de perto “os fundamentais em relação à volatilidade das classes de ativos”, porque este tipo de volatilidade “costuma associar-se a um enquadramento de investimento fértil”.

David Kelly, estratega chefe global da J.P. Morgan AM assinala que “independentemente do impacto económico, o argumento utilizado pela Fed para não subir as taxas de juro agora no mês de setembro faz-nos pensar que as taxas de juros vão aumentar ainda mais lentamente, o que limitará as quedas no mercado de obrigações e inclusivamente aumentar os ganhos em determinados segmentos”. Pensa também que “a decisão poderá ser positiva para os ativos dos mercados emergentes se os investidores se sentirem menos pressionados em rodar as suas carteiras, isto antes que o capital se direccione de forma generalizada para os EUA”.

Pelo contrário, pensa que “poderá limitar as subidas nas bolsas norte-americanas”. “Apesar da Fed apontar a volatilidade como uma das razões para não aumentar nesta ocasião as taxas de juro, é provável que a incerteza sobre as próximas ações incremente a volatilidade, prejudicando as ações norte-americanas, enquanto a Fed satisfeita com o progresso da economia do país, espera pela mudança do mundo”, sublinha. 

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