Hinterstoisser Traverse


A face norte do Eiger, no coração dos Alpes e no centro da Europa, é uma gigantesca parede rochosa quase vertical e verdadeiramente intratável para técnicas convencionais de escalada. No final da década de 1930, 4 alpinistas ambiciosos e tecnicamente evoluídos conseguiram ultrapassar um ponto crítico na ascensão para o topo, utilizando uma combinação de métodos pouco ortodoxos consolidada com o apoio de um sistema de cordas, ponto esse conhecido como Hinterstoisser Traverse. Posteriormente retiraram as cordas de apoio e continuaram a escalada…

Perante uma envolvente económica muito perigosa com riscos latentes em diversas áreas (solvência da banca, solvência de vários países na Europa, deflação, implosão do Euro, crescimento violento do desemprego), os principais Bancos Centrais foram gradualmente adoptando, de forma mais ou menos subtil, medidas de gestão de política monetária pouco habituais em termos históricos. Dada a proximidade de alguns desses Bancos com as equipas governativas (nomeadamente no Japão e nos Estados Unidos), é possível afirmar que em diversas ocasiões foram implementadas medidas em que a índole fiscal foi dominante perante considerações meramente monetárias (exemplos evidentes são o, já não tão recente, programa de compra de activos por parte da Reserva Federal, e o aumento brutal da emissão de moeda por parte do Banco do Japão).

O Banco Central Europeu manteve sempre uma postura mais cautelosa em termos da velocidade e magnitude com que determinadas medidas não convencionais deveriam (ou não) ser adoptadas por um Banco Central. Estas reservas legítimas não impediram que o BCE tivesse tido um papel preponderante na resolução de questões decisivas para o futuro da Zona Euro, tendo-se mantido a integridade do Euro nos seus moldes originais, e tendo-se avançado consideravelmente na recapitalização do sector bancário.

Na reunião de Novembro, numa decisão de certa forma inesperada, foi decidido cortar a taxa de referência do BCE em 25 pontos base, tendo sido referido posteriormente por vários responsáveis executivos a possibilidade de, num futuro próximo, virem a ser consideradas taxas marginalmente negativas nos depósitos dos bancos junto do BCE.

… Alguns metros acima a progressão ascendente tornou-se impossível, tendo o grupo tomado a decisão de regressar para a base da montanha. Ao chegarem à HT, sem as cordas de apoio instaladas inicialmente, nem o mais extraordinário dos esforços individuais lhes permite regressar ao ponto onde estavam algumas horas antes. Não vou desvendar o epílogo, mas não foi bonito.

Quer-me parecer que, a ser implementada a decisão de taxas de depósito negativas, estaremos a assistir ao desmontar simbólico das cordas de apoio por parte do BCE, não sendo possível um retorno à ortodoxia dominante em termos de Política Monetária. Não tenho certeza que seja uma boa ideia.   

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