Gestoras internacionais analisam o corte da taxa de juro protagonizado pelo BCE


É oficial. O BCE está a dar os primeiros passos no sentido de combater a deflação, mas não só. A instituição liderada por Mario Draghi anunciou um corte na taxa de juro  de referência de 0,25% para os 0,15%, inaugurando assim uma nova fase no destino da política monetária da Zona Euro.  

Da Schroders, Azad Zangana, começa por explicar que este corte na taxa de juro “já era esperado”, e acontece precisamente “numa tentativa de afastar o risco crescente de deflação na Zona Euro”. Outro dos cortes anunciados foi feito ao nível das taxa de depósito no BCE, que passa para terreno negativo em -0,10%, o que significa que “os bancos agora vão ter de pagar ao BCE para ter lá o dinheiro depositado, em vez de receberem as habituais taxas”. 

Da entidade, o economista europeu, concorda com o discurso de Mario Draghi, no que diz respeito ao facto do BCE “não poder forçar os bancos a aumentar os empréstimos, nem a baixar as taxas de juro para as famílias e empresas”. Relativamente ao corte da taxa de juro dos depósitos para terreno negativo, Azad Zangana mostra-se discordante “porque isso irá aumentar os custos de financiamento para os bancos e, consequentemente, acrescentar encargos sobre os aforradores, aumentando as taxas de juro sobre os devedores”. 

Efeitos serão mais visíveis na taxa de câmbio

Também da entidade inglesa, Gareth Isaac, fund manager da área de obrigações, acredita que o impacto do corte na taxa de juro “é provável que seja mínimo na economia real, e que tenha sobretudo efeitos na taxa de câmbio”. O gestor continua, dizendo que “o euro, depois de ter desvalorizado durante o mês de maio, em antecipação às medidados do BCE, caiu ainda mais com este anúncio, alcançando o nível mais baixo face ao dólar, desde o início de fevereiro. Esta estratégia, segundo o profissional, será importante para satisfazer um dos objectivos de Draghi: “Irá ajudar a impulsionar a inflação na Zona Euro através de preços de importações mais altos”, indica Gareth Isaac. 

Alívio de algumas economias

Da Fidelity Worwide Investments chegam “aplausos” sobre os anúncios feitos pelo Banco Central Europeu. Dominic Rossi, Global CIO de ações da entidade, refere que “finalmente o BCE  adoptou algumas medidas não ortodoxas que são bem vindas”. Tal como a Schroders, também a Fidelity sublinha que atualmente "já se vê que o euro está a enfraquecer” e, por isso, esperam que tal movimento “continue a aliviar algumas economias, e ainda o sector privado”. 

Medidas que vão perdurar

Outro factor sublinhado é a redução das metas de crescimento do BCE, e da inflação para 2014. “Agora que o crescimento nominal estimado na Europa é de 1,4%, não há muito espaço para o erro”, diz Dominic Rossi. Com a instituição europeia a definir uma taxa de inflação que ainda está muito abaixo da meta dos 2%, o especialista acredita que “estas medidas heterodoxas irão permanecer durante bastante tempo”.  

O porquê da baixa inflação

Muitos são os especialistas que defendem que a inflação na Zona Euro não está em níveis demasiado baixos que possam causar “perigo”. Para além dos factores já conhecidos que conduziram aos 1,4% de inflação, a Natixis Global Asset Management realça três elementos adicionais. Philippe Waechter, economista chefe da gestora, entende que em primeiro lugar, um dos factores é a “falta de crescimento e de pressão no sistema produtivo, em que a procura interna é fraca, tal como a procura de exportações”. O segundo factor prende-se com a falta de tensões ao nível dos salários. “A baixa pressão sobre o mercado de trabalho, as incertezas sobre o que é que os trabalhadores representam nesse mesmo mercado, e a alta taxa de desemprego, explicam também esta situação”.  

O terceiro factor prende-se com a atual estratégia seguida na Zona Euro. “Como a procura é fraca, cada um dos países quer desenvolver uma estratégia low cost que possa melhorar a sua competitividade”, diz. Para finalizar, é apresentado um factor extra: o nível forte do euro.  

Cautela na alocação de ativos 

Scott Thiel, vice-diretor de investimentos da área de fixed income da BlackRock, perante a “nova” política monetária que agora se implementa, diz que a gestora irá continuar positiva na periferia europeia, de forma geral, ao mesmo tempo que adopta uma postura mais cautelosa. “As nossas posições na região estão agora nos níveis mais baixos dos últimos dois anos”, indica.

“Estamos cientes não só da recente compressão dos spreads para as obrigações governamentais da periferia europeia, mas também de uma mudança do foco de mercado dos fundamentais, para o potencial do Quantitative Easing na Zona Euro”, conclui. 

À espera da subida das taxas de juro norte-americanas

A equipa de obrigações da Pioneer Investments também se considera satisfeita com as medidas anunciadas pelo BCE. "O corte na taxa de juro, impede que a taxa de juro EONIA suba acima dos 0,40% e, conjuntamente com a suspensão da esterilização do SMP, deverá permitir que o EONIA volte para os níveis de 0%".

A gestora acrescenta ainda que "o euro deverá enfraquecer mais ainda nos próximos dias". No entanto, na perspetiva da casa internacional, "a chave para uma mudança significativa e de longo prazo, apenas ocorrerá quando taxas de juro de curto-prazo norte-americanas subirem", dizem 

Para a J.P. Morgan AM, as novidades anunciadas por Mario Draghi "irão dar garantias aos investidores de que o BCE, está de facto comprometido com o suporte da recuperação europeia", dando também sinais positivos "para as bolsas, no curto prazo". Ainda assim, a gestora faz questão de sublinhar que "o mercado europeu no geral está próximo do preço justo, ou até um pouco acima". Da gestora reforçam continuar a ser chave a  importância do crescimento dos lucros na Europa.

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