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Fidelity: Perspetivas, oportunidades e riscos dos mercados de ações e obrigações


Depois do bom comportamento registado pelas ações e pelas obrigações, interessa perguntar quais são as perspetivas para ambas as classes de ativos? Durante uma mesa redonda celebrada recentemente, os diretores de investimentos da Fidelity Worldwide Investment explicaram qual é a sua visão para os mercados.  A maior atenção esteve centrada nas opiniões de Dominic Rossi, diretor mundial de investimentos da área de ações da gestora, e Andrew Wells, diretor mundial de investimentos em obrigações, soluções multiativos e imóveis, da entidade. Tanto Rossi, como Wells receberam várias questões chave acerca de perspetivas, oportunidades e riscos que os mercados de ações e de obrigações enfrentam atualmente. A fazer as hostes da casa esteve Dominic Rossi.

Quais são as suas perspetivas para as bolsas?

A volatilidade das bolsas de valores mantém-se controlada graças às positivas perspetivas estruturais da economia norte-americana, e acredito que poderá continuar em níveis baixos durante um período prolongado, como aconteceu no final dos anos 90. Continuo positivo relativamente às ações norte-americanas, e em relação à sua capacidade de liderarem as bolsas mundiais. Acredito mesmo que a força e a duração da sua recuperação económica vão surpreender muitos investidores. As perspetivas de lucros continuam a ser favoráveis e é muito provável que a realidade termine a desmentir os analistas que insistem que os lucros norte-americanos não têm potencial para continuar a subir.

A este respeito, já estamos a assistir a revisões em alta das previsões no sector tecnológico. Os dados  norte-americanos estão a melhorar  de forma generalizada, o duplo défice está a descer rapidamente e creio que o Obama terminará o seu mandato com um superávit orçamental. Isto significa que as ações norte-americanas terão apoio em forma de liquidez, e que as poupanças das famílias serão reencaminhadas para a bolsa.

O risco de uma correção é cada vez maior?

Embora os mercados possam continuar a ganhar terreno, com níveis de volatilidade na sua generalidade baixos, a verdade é que o risco de uma correção de curto prazo parece estar a aumentar. De facto, embora a volatilidade geral do mercado tenha sido favorável, temos assistido a algumas rotações de sectores que acabaram por castigar empresas de pequena e média capitalização. Este pode ser um sinal de que o mercado se prepara para uma consolidação.

Pode argumentar-se que estamos a começar a ver alguns comportamentos ligados à fase de maturidade do ciclo de mercado, já que começaram a aparecer alguns excessos no mercado das saídas de bolsa e nas operações empresariais. No entanto, o culto das ações ainda não voltou, e as entradas de dinheiro nos fundos das bolsas continuam a ser relativamente baixos, comparando historicamente.

Se acontecer uma correção, creio que será algo pontual, que provavelmente se irá desencadear por causa de factores externos, como por exemplo se o petróleo superar os 120 dólares por barril, devido a problemas geopolíticos, ou ainda se acontecer uma correção nos mercados de dívida corporativa.

Preocupam-lhe as valorizações?

As valorizações continuam a ser totalmente razoáveis nos EUA tendo em conta as rentabilidades sobre o capital. A este respeito interessa assinalar que uma comparação simples do PER entre as ações japonesas e as norte-americanas é enganosa, já que as rentabilidades sobre o capital do Japão foram historicamente metade do que nos EUA. Por isso creio que a diferença de valorização entre os mercados está justificada.

Certamente que as margens de lucro podem estar em máximos históricos, mas acredito que podem continuar a subir. Penso que a distribuição dos lucros entre capital e mão de obra estão a viver uma mudança profunda nos EUA. Não percebo porque é que as margens teriam que retornar para a média; para que isso ocorra, o peso da mão da obra nos lucros teria que aumentar e a menos que voltemos a ter uma mão de obra muito sindicalizada, o que é improvável, os lucros vão continuar a ser elevados. Isto deve-se em grande parte à globalização do mercado laboral, ao menor grau de organização da mão de obra, às mudanças tecnológicas e à capacidade dos mercados para pressionarem as empresas, de forma a que se centrem nas margens dos lucros de uma maneira que há 30 anos simplesmente não existia.

Quais são as suas perspetivas para as obrigações atualmente?

Creio que os rendimentos continuarão a ser baixos nas obrigações em geral, durante algum tempo. Embora as obrigações estejam caras de um ponto de vista histórico, o refinanciamento das obrigações está a ser fácil e estamos a assistir  a uma estabilidade nos mercados de obrigações, que não víamos há algum tempo. Há que ter em conta o cenário atual, no qual os bancos estão a reduzir os seus balanços, em que muitos investidores estão a procurar soluções que ofereçam rendimentos, numa altura em que os bancos centrais mantêm políticas monetárias muito expansivas.

Perante isto, espera-se que o contexto de inflação baixa continue, o que poderá significar que as obrigações continuam a ser uma boa fonte de rendimentos. Isto é ainda mais verdade quando existe uma aposta na flexibilização quantitativa por parte das autoridades monetárias, e quando vemos que as taxas de juro permanecem em níveis baixos.

Há oportunidades no high yield?

As obrigações europeias de high yield estão próximas dos 4% atualmente, pelo que o potencial de subida é mais limitado. De um ponto de vista relativo, vejo maiores oportunidades nos segmentos de high yield na Ásia e noutras partes do mundo. Também estamos a viver um aumento de interesse pela dívida emergente, onde existem algumas oportunidades atrativas ao nível da valorização, se os investidores estiverem dispostos a um enfoque seletivo. Embora alguns destes mercados, como a Rússia, Ucrânia e Venezuela, enfrentem problemas estruturais, outros configuram oportunidades interessantes. É o caso de alguns dos mercados do Sudeste Asiático, que se movem em níveis atrativos.

Onde detecta os maiores riscos nas obrigações?

Os acontecimentos extremos costumam ser os maiores riscos. Existem problemas concretos na Argentina, que já declarou que não vai pagar os juros da sua dívida a todos os credores, e na Rússia, onde a Moody’s colocou a dívida do país com perspetiva negativa, o que faz aumentar as probabilidades de uma revisão em baixa do rating de crédito do país. No entanto, alguns sectores castigados do mercado de obrigações oferecem oportunidades para conseguir boas rentabilidades.

A inflação é também um risco de primeira ordem. Existe o perigo de que a continuação dos programas de flexibilização quantitativa seja utilizado para resolver problemas económicos, tais como o desemprego. Isto significa que é muito provável que em algum momento haja um aumento de inflação. Ainda que isto possa não acontecer dentro de 12 ou 24 meses, a inflação é sempre perigosa, especialmente na parte mais longa da curva de juros, onde ela sobe e se dá uma destruição enorme de valor por causa dos vencimentos longos das obrigações.

Que tipos de estratégias deveria o investidor valorizar?

Apesar da redução dos estímulos quantitativos, continuamos ainda assim a estar num contexto de compras líquidas de ativos, e as taxas de juro continuam a estar em níveis historicamente baixos, o que significa que os investidores se deveriam centrar sobretudo nos ativos que geram rendimentos. Entre as obrigações, isto significa que a procura por rendimentos deveria continuar. Os fundos de obrigações com enfoque estratégico oferecem uma boa dose de flexibilidade para responder perante as mudanças no contexto, apesar da proteção contra a inflação continuar a ser um investimento anti-cíclico atrativo.

Tendo em conta alguns pontos de incerteza de alguns mercados bolsistas, um enfoque em multiativos internacionais também é interessante para os investidores que desejam um rendimento atrativo com alguma exposição às bolsas, mas sem a volatilidade que é inerente a essa exposição. 

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