É a China um perigo ou uma oportunidade? As gestoras internacionais analisam o processo de transformação desta economia


Hard landing ou soft landing chinês? Este debate voltou a ganhar forma depois da publicação da última informação oficial sobre o PIB do país, que reflete que a China registou um crescimento interanual de 7% no primeiro trimestre de 2015, face aos 7,3% do trimestre anterior. Considerando este número e tendo em conta as medidas do Governo chinês e do Banco Popular da China nos últimos meses, as gestoras internacionais atualizam os seus pontos de vista sobre a letra C dos BRIC.

Cada vez mais especialistas mostram o seu ceticismo em relação aos esforços reformistas da China. Neste grupo figura por exemplo Craig Botham, economista de mercados emergentes da Schroders: “Embora os últimos dados sobre o PIB chinês estejam em linha com as expetativas, temos dúvidas que os esforços em relação aos estímulos sejam suficientes para fazer com que o crescimento acelere”. O especialista fornece alguns dados macro preocupantes: a produção industrial registou durante o mês de março um mínimo de 15 anos - de 5,6% - enquanto que as vendas a retalho caíram até aos 10,2%, um nível inédito desde 2006. Também destaca a queda dos investimentos até um mínimo record, que justifica com os sectores imobiliários e da manufactura “apesar das medidas de estímulo executadas pelo banco central durante os últimos meses”. “Isto acontece porque, com um deflator do PIB de -1,2%, as taxas reais estão a subir apesar das medidas monetárias”, explica.

Desta forma, Botham chama atenção para o facto do crescimento nominal ter sido inferior ao crescimento real pela primeira vez desde 2009, ao ceder desde os 7,7% até aos 5,8%: “Apesar do IPC poder ser ainda assim positivo, a China como um todo parece estar a passar por um processo de deflação”. Por causa de todos estes dados, o economista da Schroders conclui: “Os esforços de estímulo não constituem, no nosso ponto de vista, uma resposta suficientemente forte que possa causar uma grande aceleração do crescimento. Por exemplo, o alívio monetário não deu resultados ao nível da redução das taxas nos empréstimos a novos negócios, porque os bancos tentam manter as suas margens, enquanto que as taxas dos empréstimos concedidos ainda são mais elevados em termos reais, apesar dos cortes nominais, devido à desinflação. Assim, esperam-se e são necessários mais estímulos para o trimestre”.

Mais duro mostra-se Nicolas Doisy, economista chefe da Amundi: “Os problemas da China começaram há um ano, mas as "sementes" estão plantadas desde 2009, quando os líderes do país escolheram estimular o crédito em vez de realizar estímulos fiscais. A borbulha está a rebentar agora”. Este especialista chama a atenção sobre duas ocasiões nas quais o yuan viveu uma forte depreciação em 2014. “A China tinha duas opções, ou desvalorizar para um novo contexto de Nova Normalidade com deflação, ou estabilizar a moeda para prevenir uma desvalorização”. Como se assistiu posteriormente, o país elegeu estabilizar a sua moeda, e Doisy acredita que não tinha outra opção devido ao elevado alavancamento do sector empresarial: “Foi permitido um pouco de depreciação que não causou um crash no sector privado”.

Para o representante da Amundi, o governo de PCCh deverá centrar os seus esforços reformistas ao longo deste ano numa única área: a área fiscal. “A China vai fazer os seus deveres fiscais. Finalmente elegeu as políticas corretas. Com esta decisão congelaram uma crise incipiente nos mercados emergentes. A política fiscal chinesa será em benefício do sul, mas também beneficiará os EUA e a Europa”. No entanto, Doisy realça que “existe uma possibilidade entre cinco de que ocorra um acidente”. Este acidente poderá materializar-se numa forte depreciação do yuan e em saídas de capital do país.

Uma visão mais neutral

Da Fidelity Worldwide Investment Raymond Ma, gestor do FF China Consumer, dá uma visão mais neutral sobre a economia chinesa. “A atividade  económica na China, mais débil do que o esperado, já provocou uma série de ações políticas nos últimos dois meses”, assinala o especialista. Fixa-se particularmente no alívio fiscal aplicado às PMEs, no aumento do financiamento a projetos de investimento relacionados com recursos hídricos e no corte do rácio de reservas dos bancos e das taxas de juro. Raymond Ma considera que o governo chinês terá que estender estas ações durante os próximos meses para poder cumprir com o objetivo de crescimento de 7%, e considera que entre as medidas mais prováveis figura “um desembolso mais rápido e o maior investimento em infraestruturas, um maior gasto em bem-estar social e cortes de impostos”.

Em terreno monetário, o gestor entende que em 2015 ainda falta presenciar uma política mais expansiva: “Dado o aumento repentino das taxas de juro reais desde finais de 2014 devido à queda da inflação, espera-se um corte mais profundo do índice de taxas de juro”. Por outro lado, ao prosseguirem os fluxos de saída de capitais transfronteiriços, o especialista espera que “as condições de liquidez onshore provavelmente permaneçam tensas”, o que por sua vez poderá levar a mais cortes no rácio de reservas. “Um maior apoio fiscal e monetário, assim como uma recuperação guiada pelos EUA, poderá contrariar a desaceleração em curso na economia chinesa. Em termos gerais espera-se que a economia melhore gradualmente, começando no final do segundo semestre ou no princípio do terceiro trimestre, à medida que os efeitos positivos das políticas de estímulo fiscal e monetário comecem a filtrar-se através da economia real”, conclui Ma.

Uma posição pragmática também é demonstrada pelos especialistas da Pioneer Investments. O economista Qinwell Wang e Monica Defend, directora global de alocação de ativos, afirmam que apesar dos dados macro menos favoráveis, “as condições subjacentes são provavelmente menos preocupantes do que aparentam, já que existem sinais de que o sector privado e o crescimento do consumo têm-se ‘aguentado’ relativamente bem”, dizem. Nas últimas semana denotam-se mesmo “indícios de que as condições económicas devem travar a sua deterioração”. No que diz respeito ao crescimento do lucro das empresas ligadas à indústria apontam que essa quebra dos últimos meses foi “fortemente conduzida pelas empresas ligadas à extração de petróleo e pelas refinarias, bem como pelas empresas mineiras, principalmente como resultado da descida dos preços das commodities”. 

O contexto político é claramente outro dos pontos que não pode ser descurado no país, e que anda de mão dada com  o resto dos componentes. Os sinais de uma ligeira recuperação são para a gestora internacional suportados pelas questões políticas. “Pequim elevou recentemente o deficit orçamental, o que acabou por compensar em grande medida a redução dos gastos do governo local aquando do início da regulamentações mais “apertadas””, recordam.

Entre outros pontos de apoio, o governo Chinês foi mais longe quanto às políticas referentes ao imobiliário, depois do que já tinha anunciado em setembro de 2014. Indicam por exemplo um limiar de isenção de imposto sobre a venda.  “São reduzidas as exigências quem tem uma propriedade, existindo uma isenção de impostos que passa para os dois anos, face aos anteriores cinco, que vigoravam”.

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