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Donald Trump vs Ronald Reagan


Uma norte-americana especialista em obrigações, em Portugal, perante um conjunto de profissionais da gestão de ativos, não poderia certamente contornar aquele que é o tema do momento: a eleição de Donald Trump e o impacto na economia e nos mercados.

Os mercados estão a descontar um impulso no crescimento de 0,5% - há quem refira até 1,5% - no rescaldo das eleições nos EUA”. Foi o ponto de partida de Amanda Stitt, head of fixed income investments products na Legg Mason Global AM, num pequeno almoço com investidores em Lisboa, para apresentar o Legg Mason Western Asset Macro Opportunities Bond Fund. “As pessoas estão a fazer paralelismos entre o ‘regime Trump’ e o ‘regime Reagan’. Mas Reagan, nos anos 80, encontrou um país que estava numa recessão e elevada inflação, com Volcker (o chairman da Reserva Federal na altura) já em processo de subida de taxas de juro. A administração Reagan pôs em prática uma série de reduções de impostos, o que deu um impulso significativo ao crescimento”, descreve a especialista. No entanto, em que país vivem os norte americanos agora em comparação com os anos 80? “Agora, certamente, não temos inflação, não estamos em recessão, e além disso, a taxa de desemprego aproxima-se rapidamente do nível de pleno emprego”, refere Amanda Stitt.

Focando nas diferentes bandeiras eleitorais de Donald Trump, a head of fixed income desmistifica o impacto positivo e significativo que o mercado desconta:

-           Cortes de impostos sobre o rendimento: “Os cortes de impostos sobre o rendimento, tendencialmente, geram um aumento do consumo, mas estes, nos parâmetros que estão definidos, beneficiarão os 1% mais ricos do país, e não as pessoas nos intervalos de rendimentos mais baixos; estes beneficiados têm uma maior propensão para poupar do que para gastar”.

-           Cortes de impostos corporativos: “As grandes empresas não pagam impostos aos níveis considerados, pelo que as implicações serão muito limitadas. Terá um maior impacto em empresas de dimensão menor”.

-           Desregulação: “A desregulação é geralmente positiva. Relativamente ao sector bancário, Donald Trump mostrou-se muito crítico em relação ao Dodd-Frank Act, mas uma das regulações mais restritivas para os bancos é o Basileia III, e Trump não consegue influenciá-la. No sector da energia, a desregulação irá ajudar mais as energias ‘dirty’ – o carvão, petróleo de xisto, etc. – às custas do gás natural, energia solar, e outras energias mais limpas”.

-           Protecionismo: “As medidas protecionistas serão negativas para as grandes empresas norte-americanas”. Estas empresas localizam grande parte da produção fora do país, inclusive em países como o México ou China, com os quais Trump almeja uma atitude mais protecionista. “Um grande muro afetaria a economia mexicana, mas também a economia dos EUA”, destaca Amanda Stitt.

Neste contexto, a profissional é categórica: “Há que ter em consideração que as mudanças demoram tempo a executar, e Reagan demorou anos a pôr em prática as suas medidas”.

As cruzes na check list

E relativamente ao impacto na política monetária de uma vitória de Trump? “Três coisas precisam de acontecer para que a Fed suba taxas. Primeiro, as expectativas de inflação tinham que subir. Já aconteceu. Segundo, as condições financeiras teriam que melhorar. Temos observado evidências disso mesmo. E por fim, teríamos que ver mais crescimento, o que já aconteceu também. Se as três condições forem cumpridas, a Fed irá certamente subir taxas esta semana”.

Relativamente à divisa, “se temos por um lado uma expansão fiscal e por outro a contração da política monetária, como irá reagir o dólar? Se temos yields maiores nos EUA do que no resto do mundo, o dólar valoriza. Se os EUA crescem mais que o resto do mundo, o dólar valoriza”, infere a profissional. Novamente desenhando o paralelo com a administração Reagan, quando o dólar valorizou 50%, Amanda Stitt deixa a pergunta no ar: “Já vimos o dólar a subir 25% face a mínimos, poderemos esperar mais 25%?” Por outro lado, a especialista aponta que “se a Fed tiver que subir taxas mais rapidamente, a curva de yields perde inclinação”. As taxas mais curtas sobem, as mais longas descem, pelo que “como somos gestores ativos de taxas de juro, este é um contexto bastante positivo, em que podemos investir em obrigações mais longas, shortar a parte curta da curva e lucrar com este tipo de cenário”, esclarece.

O Legg Mason Western Asset Macro Opportunities Bond Fund

Capitalizando no know how da equipa de gestão liderada por Ken Leech, a estratégia da casa de investimentos norte-americana ostenta o selo Blockbuster Funds People. Com um caráter unconstrained, procura maximizar o retorno total relativamente a um orçamento de risco, focando no controlo da volatilidade. Um fundo “de elevada convicção, enfoque nas melhores ideias de investimento, e uma abordagem de valor fundamental”, descreve Amanda. “O que faz deste fundo uma estratégia única, é o facto de ter uma política de taxa de juro muito ativa”, refere, destacando uma duration do portefólio muito dinâmica, que pode efetivamente ser negativa, bem como a alocação ativa ao longo da curva. “Historicamente, metade da performance deste produto vem de uma componente de gestão ativa das taxas de juro, e a outra metade vem da análise macro fundamental de longo prazo”, refere a especialista.

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