Diagnóstico das gestoras internacionais: a solução que resta ao BCE é anunciar um QE no primeiro trimestre de 2015


Cada reunião mensal com o BCE converteu-se em encontros com os economistas chefes, com os diretores de investimento, analistas, gestores e outros especialistas de várias gestoras internacionais, que interpretam as mensagens deixadas por Mario Draghi a cada quinta-feira do mês. A última ocasião não foi exceção, especialmente porque o presidente do BCE deu a entender que em janeiro poderia começar a comprar mais ativos do que aqueles que já está a adquirir a instituição monetária (o conhecido QE de compra de dívida soberana que está na mente de todos). Draghi anunciou a diminuição em uma décima da expectativa de crescimento para a Zona Euro em 2014 (até aos 0,8%) e de seis décimas para 2015 (até 1%). Deixou também outras mensagens: um aviso para que os países com problemas estruturais continuem a fazer reformas, bem como a intenção de vigiar muito atentamente a evolução dos preços da energia por causa do impacto que têm na inflação.

O economista chefe da NAM (filial da Natixis Global AM), Phillippe Waechter, centra a sua análise nas razões pelas quais o BCE será obrigado a ser ainda mais acomodatício nos próximos tempos. “Creio que podemos ter uma recuperação em 2015 que é vinculada a um euro mais barato e aos barris de petróleo com preços mais baixos. Mas a política monetária também tem que dar o seu apoio”, avança o especialista. A primeira razão que apresenta é de índole macro: os dados são muito fracos. Exemplo disso é a taxa de inflação nos 0,3%. A segunda tem a ver com os instrumentos que o BCE tem agora em marcha (TLTROs, compras de ABS e titularizações), que Waecther considera “insuficientes para cobrir os objectivos do BCE”. Segundo os cálculos do profissional, com o ritmo atual de compras e injeções de liquidez à banca, o BCE irá necessitar de cinco anos e meio para expandir o seu balanço no valor de um bilião de euros. “Há necessidade de atuar rapidamente, já que a situação atual na Zona Euro está profundamente desequilibrada”, conclui o especialista.

Azad Zangana, economista da Schroders, aponta as suas próprias razões pelas quais acredita que o BCE não vai ter outra solução se não alterar a postura: em primeiro lugar, na realidade o euro valorizou-se em outubro (numa base equiponderada), muito porque outras moedas também valorizaram de forma bem mais agressiva do que a moeda única. Para Zangana, a segunda razão é a falta de fluxos de crédito para as famílias e as empresas. “Embora esta situação deva melhorar, temos dúvidas que aconteça rápido o suficiente para satisfazer o BCE”, indica. Por fim, a última razão, tem a ver com a falta de expectativas sobre a melhoria de crescimento e a inflação de curto prazo.

Que medidas pode o investidor adoptar?

Scott Thiel, chefe de investimento adjunto da equipa de obrigações fundamentais da BlackRock, fixa-se no facto do BCE ter mudado a sua maneira de se expressar relativamente aos seus planos para expandir o balanço, passando da utilização da palavra “esperado” para a palavra “planeado”; esta foi uma decisão que Draghi revelou que não foi decidida por unanimidade. “Isto leva a crer que pode ser mais difícil acordar de forma unânime uma decisão sobre a expansão explícita dos balanços no futuro”, indica Thiel.

Neste contexto em que o BCE está “claramente em modo de expansão monetária”, e a proporcionar financiamento à banca a taxas muito baixas através dos TLTRO, fez com que a equipa da BlackRock preferisse a dívida italiana à espanhola de curta duração para jogar com a compressão dos spreads face à dívida alemã. Adicionalmente acreditam que tanto os TLTRO como o programa de compra de ABS e titularizações, favorecem os bancos europeus, pelo que se reafirmam na sobreponderação da dívida subordinada a estas entidades.

Thiel termina com um aviso sobre o aumento da volatilidade a que se assistiu nas últimas semanas: “Vemos potencial no aparecimento de mais volatilidade à medida que surjam problemas de liquidez, uma vez que os mercados começam a centrar-se nos grandes desequilíbrios e em certos sectores que têm aumentado bastante durante a era das políticas monetárias mais “relaxadas”, mas também à medida que a divergência entre as políticas monetárias se torne mais pronunciada”. Para o representante da BlackRock, neste contexto “manter o foco sobre os fundamentais ignorando o ruído de mercado vai ser algo essencial, juntamente com a diversificação e um forte enfoque na gestão de risco”. 

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