'Dia D' sobre o Quantitative Easing à Europeia: que consequências?


Caraterísticas como a velocidade ou a dimensão da compra de dívida soberana que pode ser anunciada hoje pelo BCE  são as que os mercados mais se questionam por esta altura, ainda que a principal dúvida permaneça: será esta tarde que Mario Draghi fará o tão esperado anúncio de um QE à europeia? Tal como referia a UBS Global Asset Management, em mais um Economist Insights assinado pelos economistas Joshua McCallum e Gianluca Moretti, a data em que efetivamente se inicia o quantitative easing tem uma importância relativa, já que os presentes na reunião “podem não chegar a acordo sobre todos os detalhes”.

Lembrando questões como as eleições gregas no próximo fim-de-semana, os especialistas reiteraram também que “os bancos gregos podem não ser capazes de se refinanciar junto do BCE com o programa a terminar no final de fevereiro. Neste contexto será difícil para o BCE comprar títulos de dívida grega se não aceitarem como colateral a garantia dos bancos gregos”.

Importância do longo prazo

Numa alusão à velocidade com que o QE poderá ocorrer, da Amundi, o responsável global de análise e estratégia, Phillipe Ithurbide, numa edição especial do relatório Cross-Asset, refere que “se o BCE quer colocar pressão sobre as taxas das obrigações e sobre os spreads quanto mais a longo prazo melhor”, explica, referindo-se aos possíveis vencimentos do QE europeu. Ithurbide recorda a este nível que contrariamente a países como Reino Unido ou Estados Unidos, “a Europa continental é mais sensível às taxas de longo prazo, com a França e a Bélgica a serem os melhores exemplos”. Em particular, da gestora francesa acreditam que o BCE comprará, muito provavelmente, obrigações com vencimentos de cinco a dez anos. “Alguns países poderão ter as suas emissões do ano cobertas apenas pelas compras do BCE. No caso de outros, dependendo das quantidades e dos vencimentos, poderá ser menos favorável”, conclui.

Os bancos centrais preparam-se para a decisão do BCE

A semana começou com o anúncio de outro banco central, mais concretamente da Dinamarca, com um corte da taxa de depósitos para terreno negativo, especificamente em 15 pontos base, depois de várias sessões em que a autoridade monetária tinha atuado no mercado cambial. “Já se tinha considerado nos preços que a Dinamarca cortaria as taxas depois do anúncio do QE do BCE esperado para quinta-feira, e que poderia também acontecer outro corte seguidamente”, explica Lars Peter Lilleøre, estratega da Nordea. “Fazer essa antecipação para segunda-feira está relacionada com ação do Banco Nacional da Suíça, levada a cabo na semana passada. Quem será o seguinte? Acredito que a Dinamarca o possa fazer outra vez”, explica o especialista.

As medidas anunciadas pelo Banco Nacional Suíço vão beneficiar a Zona Euro

A propósito do BNS, Nicolas Doisy, economista chefe da Amundi, entende que a retirada da intervenção sobre o franco e o aprofundamento das taxas negativas vai ajudar muito mais o BCE do que a própria economia suíça. Para Doisy, no ajuste de 30% posterior do franco, “apenas se pode assinalar que a absorção passiva por parte do BNS da liquidez do BCE a partir de operadores privados em momentos de tensão tem que parar”.

O economista insiste que o movimento do BNS “apenas pode ser entendido se se analisar em conjunto com a introdução de taxas negativas: o balanço do BNS acumulou demasiado de forma a não ameaçar a estabilidade financeira em casa”. Isto aconteceu porque depois de quatro anos de intervenção na moeda, o balanço do banco suíço cresceu até equivaler cerca de 30% do PIB suíço. “As taxas negativas pretendem precisamente assumir toda a ameaça de liquidez para começar a procurar rentabilidade através de estratégias especulativas”, afirma Doisy.

O economista chefe da Amundi prevê que a revalorização do franco face ao euro contribua para debilitar a moeda única “e feche a lacuna que provavelmente se vai abrir por causa da mutualização do risco do programa de QE pré anunciado pelo BCE”. No lado suíço, Doisy acredita que o impacto das medidas vai intensificar a deflação e converterá o franco na nova moeda estrela para efetuar estratégias de carry trade, enquanto a desvalorização do euro será mais do que bem-vinda. Portanto, se foi uma ação coordenada – como se especulou nos mercados desde quinta-feira – ou não, o especialista afirma que “a decisão do BNS está a ajudar o BCE, também porque tem feito ‘reset’ ao franco num novo valor justo de mercado com a nova política monetária, um factor que provavelmente reduz o interesse dos investidores pelo uso do euro”. A isto acrescenta que, ao permitir que o franco se volte a valorizar, o BNS recuperou a sua condição de ativo refúgio face à incerteza da zona euro.

A última razão pela qual Doisy pensa que o BNS está a beneficiar o BCE é porque com o seu movimento “ajudará a reduzir os fluxos de saída da liquidez proporcionada pelo QE, mantendo-os na zona euro, precisamente quando a crise grega ameaça voltar a começar”. O economista entende como alargada a desvalorização do euro, também em relação ao dólar, “que é de apoio para toda a curva da moeda única, com alguma volatilidade vinda do drama helénico”.

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