Desvalorização ‘tripla’ do yuan: os riscos avaliados pelas gestoras internacionais


O Banco Popular da China (PBOC, nas siglas em inglês) voltou a surpreender o mercado ao permitir uma segunda desvalorização consecutiva do yuan de 1,6%... e ontem uma terceira depreciação, de 1,1%. No entanto, a Instituição chinesa já veio garantir que o período de ajustamento está concluído. Contas feitas, nestes três dias o yuan desvalorizou 4,5% face ao dólar. Recorde-se que a primeira desvalorização, realizada na passada terça-feira, representou o maior retrocesso para a moeda num único dia, desde 1994.

Se após o segundo anúncio de desvalorização do renminbi, os mercados de ações, de divisas e de matérias primas digeriram da pior forma esta manobra, com o terceiro movimento de depreciação da moeda a ser acompanhado pela garantia do PBOC de que se tinha colocado fim à desvalorização do yuan, os mercados acalmaram... e animaram. Os principais índices bolsistas europeus foram os primeiros a reagir positivamente às notícias, negociando em alta, logo após o anúncio.

Mas o que representa afinal esta política monetária da China?

Num comentário sobre o que este ajustamento pode representar para as outras divisas, o economista chefe da Amundi em Hong Kong, Mo Ji, prevê o seguinte impacto da desvalorização do yuan sobre as outras moedas: um dólar mais forte, maior debilidade do euro, do yen, das divisas emergentes e também daquelas que estão mais relacionadas com as matérias primas. Adicionalmente comenta que a taxa de câmbio dólar/yuan “estará mais orientada para o mercado, e será decidida pela oferta e pela procura, enquanto a banda de negociação se expandirá ainda mais”. A sua previsão para o médio/longo prazo é que o “renminbi negociará tendo por base os fundamentais mais do que no passado”. Mo Ji afirma que esta manobra “marca uma significativa mudança de mentalidade tanto dos políticos como dos players de mercado. Passámos do “nada é possível com a rigidez do yuan”, para o “tudo é possível para mudar o caminho de desaceleração da economia”.

O especialista crê igualmente que o novo sistema de cálculo da negociação da moeda também é uma manobra do banco central para que o FMI inclua o yuan no seu “cesto” de divisas com direitos especiais de saque (SDR, nas siglas em inglês), “A falta de flexibilidade na taxa de câmbio conta com uma barreira técnica para a inclusão do renminbi na SDR. Este procedimento permitirá às forças de mercado jogar um papel mais significativo na determinação dos preços relativos ao renminbi”.

Do Credit Suisse também entendem que o “Banco Central Chinês reformou o mecanismo central e a definição da taxa cambial de modo a ser mais orientado pelo mercado”, sendo clara a intenção de “internacionalização da moeda” nestes movimentos. Para a Pioneer Investments, o objetivo do PBOC também vai mais além do estímulo às exportações. “Na nossa opinião o Banco Popular da China não está a intervir de forma a captar quota de mercado nas exportações através de uma desvalorização competitiva. Simplesmente está a exercer o seu mandato de forma a evitar uma apreciação massiva do ponto de vista dos fluxos de oferta e de procura”, salientam Monica Defend, head of global asset allocation research, e Qinwei Wang, economista, ambos da Pioneer. Para a entidade é improvável que a China entre num processo de “hard landing” e, por isso, não acreditam que o país “inicie uma guerra cambial”.

Riscos em cima da mesa

Um dos riscos subjacentes a esta nova política do Banco Popular da China é o possível “reaparecimento das pressões deflacionárias”, diz Martin Skanberg, fund manager de ações europeias da Schroders. O profissional avança mesmo que os sinaisjá são evidentes no índice de preços no produtor na China, que atualmente se situa nos -5% ano após ano”. “Um contágio aos mercados emergentes, guerras cambiais, e um potencial alargamento à região da Ásia Pacífico, representam um risco alargado para as ações europeias”, sentencia da Schroders, o especialista nesta classe de ativos. 

O risco de que as pressões deflacionárias se incrementem é também uma preocupação partilhada pela Pioneer Investments, que acredita que se a situação sair fora do controlo, os “mercados financeiros começarão a considerar nos preços uma forte desaceleração da economia chinesa”, que para além dos riscos de deflação, pode ainda provocar “uma deterioração do outlook para a economia em termos globais”.

Sectores mais prejudicados

Muito embora, em última análise, o ajustamento na moeda chinesa possa de forma marginal ser positivo para as exportações no país, existem empresas para as quais o impacto não será o melhor. Do Credit Suisse apontam que um yuan mais fraco pode ser negativo para “as indústrias que têm uma grande base de custos em USD, como é o caso das empresas de petróleo, gás e mineração”. Também aquelas que nos seus balanços normalmente têm dívida denominada em USD mas que “geram receitas em renminbi, podem ser afectadas negativamente, como é o caso das empresas de aviação ou as Telecoms”.

Fazendo referência à baixa exposição que a Zona Euro tem à China, da Schroders materializam qual a relação com o país. “Cerca de 6% do total de exportações da Zona Euro dirige-se à China, com apenas 10% das importações a virem da China”, lembra Martin Skanberg. No que toca aos mercados de capitais europeus, o especialista entende que impacto da desvalorização do yuan também não será muito extenso. No campo dos sectores que poderão ser mais afetados aponta os bens de luxo e as empresas automobilísticas, por causa da elevada exposição ao mercado chinês. “Os lucros transferidos sofrerão impacto. Para além disso, as desvantagens da competitividade transacionada podem aparecer por causa de uma uma competição revitalizada na China”. 

A nível corporativo, Mo Ji, da Amundi indica também que as empresas mais afetadas pela desvalorização da moeda serão aquelas que estão ligadas aos transportes (especialmente aéreos), bem como às matérias primas. As mais beneficiadas, por outro lado, serão as de bens de capital, as pertencentes ao sector da energia, e ainda as de hardware tecnológico, por causa do aumento das receitas exteriores, muito embora os seus custos estejam denominados em renminbis.

 

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