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Descubra porque é que este ciclo de subida do dólar é diferente dos ciclos anteriores


O facto do dólar se ter tornado mais caro desde 2014 já representa uma subida de 14% em termos reais, e de 20% em termos nominais. Para Bastien Drut, estratega e analista da Amundi, a principal causa da subida do dólar são simplesmente as divergências monetárias: EUA e Reino Unido são as únicas economias desenvolvidas em posição de voltar à normalização monetária, enquanto são esperados cada vez mais estímulos quantitativos na Europa e no Japão. No entanto, da entidade recordam que “o catalisador original da subida do dólar foi a forte subida das projeções sobre as taxas de juro da Reserva Federal (o gráfico dos pontos) em setembro de 2014, quando os membros do Comité Aberto (FOMC) mudaram as suas projeções sobre as taxas para finais de 2016, de 2,5% para 3%. Desde então os membros do FOMC têm estado a baixar os pontos a um ritmo forte.

Drut avisa que “seria um erro centrar-se exclusivamente na taxa de câmbio euro/dólar para avaliar a última valorização. Chama a atenção para o facto de embora o dólar ter estado com um câmbio em torno dos 1,10 euros desde o início de 2015, na realidade o dólar valorizou menos em termos reais no segundo trimestre, quando os mercados tiveram que digerir os maus dados de crescimento durante o primeiro trimestre nos EUA.

Para obter uma análise mais precisa, o especialista contrasta a evolução da moeda com um cabaz de divisas dos principais parceiros comerciais dos EUA, cujas ponderações a Fed revê todos os anos. O yuan representava menos de 1% no início da década de 1970, enquanto que agora equivale a cerca de 21%, o que a converte na moeda mais importante deste conjunto, seguida do euro (16%), do dólar canadiano (13%), do peso mexicano (12%) e do yen (7%).

A partir destas ponderações, o estratega constata que, entre o verão de 2014 e finais de setembro de 2015, a taxa de câmbio nominal efetiva do dólar subiu cerca de 20%, mas a sua valorização face ao euro contribuiu apenas em cerca de 12% para este movimento. “Isto difere do ciclo prévio de apreciação do dólar (entre 1996 e 2001), durante o qual a depreciação do euro supôs aproximadamente um terço da apreciação do dólar em termos efetivos”, assinalam da gestora.

Por outro lado o peso mexicano e o dólar canadiano contribuíram juntos para um terço da apreciação do dólar. No caso da moeda do Canadá, foi a política acomodatícia do seu banco central e a queda do preço do petróleo que contribuiram para a depreciação do dólar canadiano,  enquanto que o peso foi afectado pela queda do preço do petróleo e pela perspetiva de que a Reserva Federal vá subir as taxas de juro. “Quase toda a depreciação do euro, do dólar canadiano e do peso mexicano, se desenvolveu entre o verão de 2014 e março de 2015. Embora ainda exista margem para que estas três divisas caiam mais face ao dólar, muito do seu potencial parece ter-se esgotado”, concluiu Drut.

Desde maio deste ano a valorização do dólar foi especialmente marcante relativamente às divisas emergentes, em grande parte pela queda continuada dos preços das matérias primas. “Enquanto que a desvalorização do yuan teve um impacto muito marginal sobre a subida do dólar na taxa de câmbio efetiva, a desaceleração da China serviu para empurrar o dólar, ao terem caído as divisas emergentes”, assinala o estratega.

Quão mais longe pode chegar o dólar?

Está o 'bilhete verde' sobrevalorizado? O especialista da Amundi assinala que, face à extraordinária subida em tão curto espaço de tempo, “a taxa de câmbio real efetiva dos EUA apenas excedeu recentemente a sua média de longo prazo”. Da entidade calculam que o efeito negativo de um dólar mais forte se notaria sobre as exportações: segundo o FMI, um aumento de 10% na taxa de câmbio efetiva supõe uma redução das exportações líquidas de cerca de 1,5% do PIB, em média.

Drut também relembra as declarações feitas por Stanley Fischer, vice-presidente da Fed, na reunião de banqueiros centrais de Jackson Hole deste ano. Este indicou que a valorização real do dólar terá um impacto negativo sobre a inflação no trimestre seguinte durante o próximo ano, enquanto que o seu impacto sobre a atividade económica se sentirá essencialmente no segundo ano depois de ter acontecido o incremento. Ou seja, as repercussões da apreciação do dólar começarão a ser digeridas de forma notável em 2016 e provavelmente em 2017.

Tendo por base todas estas observações, a conclusão do especialista é que “é evidente que a apreciação do dólar não ajuda a economia norte-americana. No entanto, visto que é uma economia relativamente fechada, é provável que aguente a pressão”.

A isto acrescenta que ao apresentar a inflação riscos de queda, “é provável que se reduza o endurecimento monetário da Fed, o que poderá, por extensão, limitar a subida do dólar”. Em conclusão: “a valorização da taxa de câmbio, é efetivamente uma forma de endurecimento monetário”. E respondendo à pergunta sobre a valorização do dólar, Druth afirma que sim, “o dólar já sobrevalorizado e esta sobrevalorização, embora não sendo extrema, poderá continuar a aumentar nos próximos meses”.

Um pouco de história

Drut recorre a um pouco de história para continuar a analisar o comportamento do dólar e chegar a uma conclusão. Recorda que, desde o final de Bretton Woods no início dos anos 70, a moeda passou por dois grandes episódios de valorização real que duraram, em ambos os casos, aproximadamente cinco anos: entre 1980 e 1985, e no período entre 1996 e 2002. Para além disso, em ambos os momentos, foram visíveis episódios em que o dólar parou de valorizar, e que chegaram a durar alguns meses. “O episódio atual começou há doze meses e é improvável que dure tanto como os ciclos prévios, ao ser a recuperação dos EUA débil, no ciclo atual, relativamente aos standards históricos, e sendo ainda provável que o ciclo de subidas de taxas da Fed seja ainda mais pequeno, em escala, do que os anteriores. Para além disso, os vários indicadores empresariais  revelam que o ciclo de crédito já está muito desenvolvido”, assegura o especialista. 

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