Da Rússia com preocupação: gestoras acreditam na recessão mas descartam default


A subida da taxa de juro até 17% (duas subidas em apenas uma semana) e a venda das reservas cambiais para aliviar a queda livre do rublo, das ações (queda de 8% no mês) e das obrigações (aumento de 5% para mais de 15%) está a marcar a atualidade do país. A Rússia tenta evitar que a história se repita e se produza um segundo ‘efeito vodka’. No entanto, a situação continua a agravar-se com a queda dos preços do petróleo e com uma subida forte da volatilidade.

Segundo o cálculo dos especialistas da Fidelity Worldwide Investment, uma descida adicional dos preços do petróleo superior a 10% irá fazer com que o PIB russo sofra uma queda de 1,3%. “O objetivo do Banco Central da Rússia (BCR) é a lenta depreciação da sua moeda, mais do que conseguir uma reversão da tendência. Está muito preocupado com o modo confuso e disfuncional com que a moeda está a ser negociada”, comentam os especialistas da entidade, que consideram que a subida das taxas de juro deverá ser a ferramenta principal do banco antes da venda das suas reservas cambiais, “que demonstrou ser um estratégia ineficaz e mais dispendiosa em 2008”. No entanto, indicam, que no curto prazo será o preço do petróleo a variável mais determinante para a cotação do rublo.

As previsões dos especialistas da Fidelity são, contudo, pragmáticas: “Poderia o estado russo ser forçado a declarar um default da sua dívida, como fez em 1998? Em traços gerais, parece improvável. Há alguns paralelismos preocupantes com o que ocorreu nesse ano: o preço do petróleo também caiu fortemente e a Rússia também estava envolvida num conflito internacional (Chechénia), no entanto as contas russas são hoje muito mais sólidas do que em 1998”. Baseiam esta afirmação com o baixo endividamento estatal, de apenas 10% do PIB (em 1998 era de 100%) e a vontade atual do BCR em deixar a moeda flutuar livremente. “Como resultado, ao contrário do que aconteceu em 2008, um rublo baixo hoje pode atuar como absorvente de choques, ao equilibrar o preço em dólares do petróleo e manter estável a balança fiscal”, dizem da entidade.

Steve Ellis, gestor de obrigações emergentes, também se protege com o baixo endividamento do país para descartar o default da dívida soberana, o que aumenta os vencimentos da dívida previstos para o ano que vem “numa quantidade relativamente baixa”. Assinala, também, que a divida corporativa poderá ter um risco maior, com as taxas a subirem e com a procura interna a descer. Em termos gerais, o especialista espera mais volatilidade nos mercados de dívida russa quando combinada com a deslocação observada nas ultimas semanas com baixos níveis de liquidez. Esta é a razão pela qual, na Fidelity, subponderam este ativo.

O seu outro prognóstico é que o PIB russo encerre o ano com um crescimento de 0% e que caia 5% em 2015, “o que seria problemático para alguns bancos e empresas industriais”. Sobre o impacto da depreciação do rublo no sistema financeiro também se pronunciou Jesus Martínez, responsável pelo Financial Institutions Ratings da Standard & Poor's Ratings Services e atualmente encarregado de analisar os bancos do norte da Europa. Num pequeno-almoço organizado pelo CFA Espanha, Martinez afirmou que os bancos europeus não deverão sofrer um impacto forte, dado que a sua exposição à Rússia é muito reduzida (podendo haver exceções). Todavia poderá haver um impacto através dos mercados de capitais, afetando os ganhos na banca de investimento dados os custos de financiamento serem mais elevados.

Corrida contra o tempo

Os próximos dois dias serão decisivos”, afirma taxativamente Heinz Ruettimann, analista estratega do Julius Baer (parte da Swiss & Global). O especialista indica que o BCR só têm duas opções caso a cotação dólar/rublo não estabilize: o controlo de capital é claramente a opção menos favorita, já que qualquer fluxo de investimento tenderá a parar e o rating russo poderá estar em perigo. O segundo efeito colateral do controlo de capital será a penalização dos investidores estrangeiros com exposição ao país através de fundos (tanto de ações como de obrigações) que investem no mercado local. “Com o controlo de capital, esses produtos já não poderiam fazer transações de forma tão facilitada”.

As matérias-primas e em geral os recursos naturais e o papel da Federação Russa nesses mercados também estão na mente de Elaine Stokes, gestor da equipa de obrigações flexíveis da Loomis Sayles (filial da Natixis Global AM), quando se falam em ameaças politicas. “Estamos muito atentos à batalha global por recursos naturais, incluindo água, energia e metais, que está a começar a criar algumas combinações improváveis. Nalguns casos, parece que os recursos e o poder estão a ir para as mãos de governos menos amigáveis devido a alianças improváveis: por exemplo, a China e a Rússia ou o Irão e a Rússia; e a compra por parte da China de uma ilha em frente à Venezuela”. A gestora vaticina que “este fenómeno provocará turbulências contínuas e adiará uma solução rápida e justa sobre a questão dos recursos globais”.

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