Convulsão nos mercados: a génese dos acontecimentos, que ativos considerar e... muita calma


O Banco Central Chinês deu ontem aos mercados um sinal de calma, que fez com que as bolsas um pouco por todo o mundo se animassem. A autoridade monetária chinesa cortou em 25 pontos base a taxa de juro aplicada aos empréstimos, situando-a em 4,6%, e ainda a taxa de juro a um ano dos depósitos, igualmente em 25 pontos, para os 1,75%.

Este era um movimento que alguns especialistas já vinham a antecipar, como era o caso de Christophe Bernard, diretor de estratégias da Vontobel AM que depois da “sangria” nos mercados da passada segunda-feira, falava da grande probabilidade da China “flexibilizar a sua agressiva política monetária cortando nas taxas de juros e nos RRR (Reserve Requirement Ratios)”. De forma semelhante, da Neuberger Berman anteviam que depois da desvalorização do yuan, “cortes adicionais nas taxas de juro, bem como investimentos do governo em ações”, estavam no horizonte”.

Da Schroders, Craig Botham, economista de mercados emergentes, acredita, por um lado,  que “cortando os RRR, e tendo em conta o atual contexto, a liquidez será restaurada e os empréstimos suportados”; por outro lado, “os cortes das taxas de juro, deverão reduzir os custos de financiamento, em particular para as famílias e para as empresas do estado”. Mas terá este movimento uma repercussão significativa no cresimento? “Temos dúvidas”, dizem da entidade britânica, para quem os efeitos positivos serão sentidos mais no curto prazo e apenas ao nível do sentimento de mercado.

Retrospetiva: o que já fazia prever que este cenário se estava a adensar

Colocando a “fita” do filme de 2015 para trás, vale a pena recordar que a meio do ano e depois de sucessivos momentos de volatilidade, as gestoras internacionais já iam emitindo avisos sobre a muito provável continuidade da volatilidade durante os meses seguintes. Como refere a Deutsche Asset & Wealth Management, no documento 'CIO Flash', “já tínhamos avisado sobre os perigos dos ‘flash crashes’, e previsto, no início do ano, que a volatilidade continuaria durante 2015”, referem, dizendo que “a correção do mercado pode prolongar-se durante mais alguns dias”. Também os “movimentos bruscos de mercado já desencadearam um reforço de provisões, com os fundos de investimento a serem forçados a desfazer-se de determinadas posições”.  

Na génese deste sobressalto, está claramente o forte posicionamento económico dos mercados emergentes e da Ásia de 2010-2013. “Durante esse 'boom' económico muitos foram os balanços que se começaram a degradar, como é normal nesses períodos”, resumem da UBS Global AM. A equipa de ações asiáticas da entidade recorda que nessa altura  “tanto as divisas como os salários cresceram, conduzindo a uma perda de competitividade”. Por exemplo, “os custos unitários do trabalho, em USD, para o Brasil e para a China, cresceram perto de 10% por ano, entre 2004 e 2013”.

Também a antecipar uma continuação da volatilidade nos próximos tempos, da Neuberger Berman fazem uma espécie de balanço da gravidade da situação, e entendem que a questão agora é perceber “se o recuo nos ativos de risco, representa uma pausa momentânea, como sucedeu em 2011, ou se se pode antecipar algo mais sério, como uma recessão global”. A resiliência aparente da economia norte-americana, é a este nível, um forte peso para rejeitar a última hipótese, dizem da entidade, para quem “o crescimento na Europa e no Japão”, bem como “o comprometimento político global de amortecer os shocks”, são factores suficientes para conter situações mais graves.

Réplica da crise asiática de 1997?

O índice VIX  - um ‘termómetro’ de volatilidade – mais do que dobrou desde meio de agosto. Depois dos mercados de ações chineses, um pouco por todo o mundo, os ativos de risco começaram a ressentir-se, e os mercados de ações já perderam praticamente a maioria dos ganhos conseguidos no ano. “Depois de um prolongado bull market nas ações, uma correção não deveria ser entendida como uma surpresa e, de certa forma, deveria ser bem vinda”, assegura Giordano Lombardo, Group CIO da Pioneer Investments, que entende que a situação é mais complicada para os mercados emergentes, pois “têm maior exposição direta ao crescimento da China e aos baixos preços do petróleo”.

Nestas condições, apesar da crise asiática de 1997 começar a ser uma campainha prestes a soar em forma de aviso, os especialistas das gestoras internacionais são cautelosos. Da Deutsche AWM creem que “embora os mercados emergentes sofram com as perturbações da China, esta não é uma repetição de crise asiática de 1997”, pois o foco “está em três dos quatro BRICs (Brasil, Rússia e China, mas não na Índia)”, e ainda noutros países. A mesma visão é partilhada pela UBS Global AM: “Não entendemos que esta seja uma réplica da crise asiática de 1997-98, altura em que as moedas desvalorizaram quase 40%, num curto espaço de seis meses. Atualmente, embora a dívida asiática seja alta, é maioritariamente doméstica”.

O que esperar daqui para a frente e em que “campos” confiar

Como já referido, as casas internacionais foram antecipando a correção de mercado a que agora assistimos. A situação na Grécia foi um dos primeiros "gatilhos puxados", seguido da correção nas bolsas chinesas. É neste contexto que as entidades voltam a fazer bandeira da palavra “precaução”. Giordano Lombardo lembra que da Pioneer Investments foram sugerindo aos investidores estarem muito defensivos em todo o espectro de investimento. “Temos sido cautelosos nos ativos de risco, nas obrigações periféricas e nos mercados emergentes, favorecendo por exemplo as empresas com uma exposição doméstica aos mercados desenvolvidos, e assumindo menos exposição à componente cíclica de mercados emergentes, bem como ao abrandamento da China”.

Para quem ainda está “indeciso” sobre que “rumo” dar a determinados investimentos, das gestoras internacionais avisam que agora, o melhor, é esperar. “Definitivamente este não é o melhor momento para vender, e olhando para os preços negociados na bolsa de Londres na sessão de ontem, e para o comportamento do mercado norte-americano, no final do ano vamos provavelmente a assistir a níveis mais elevados do que os atuais”, infere Dominic Rossi, diretor mundial de ações da Fidelity Worldwide Investment.  Igualmente, da Vontobel AM, indicam que “é tarde demais para vender”, e a alternativa é procurar oportunidades.

Nesse caminho da oportunidade, a estratégia da Neuberger Berman passa por “reduzir o risco associado aos mercados emergentes e aos mercados de ações desenvolvidos fora dos EUA”. Por isso, privilegiam tanto a exposição a ações norte-americanas de empresas de grande e média capitalização. No campo das ações, da Deutsche AWM, veem outro ponto de entrada interessante. “Os níveis de valorizações das ações europeias tornaram-se novamente atrativos, na nossa perspetiva, e uma renovada valorização do dólar poderá ser positiva para as empresas europeias”. Já nas obrigações, estão a subponderar, como um todo, o crédito de mercados emergentes, e assumem-se neutrais no investment grade de mercados desenvolvidos e na dívida high yield.

Numa abordagem mais específica sobre as carteiras de Ásia e mercados emergentes, a equipa da UBS Global AM conta que estão a sobreponderar Índia; por outro lado, subponderam ou estão neutrais, em países como a Indonésia ou Malásia.

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