Contas feitas: Quem sai mais e menos beneficiado do programa de expansão quantitativa do BCE


Desde que Mario Draghi anunciou o lançamento da maior experiência na política monetária levada a cabo na Europa até ao momento, foram muitas as especulações que surgiram em torno de qual será o alcance e quais os principais beneficiados do QE do BCE. A Amundi publicou no seu último relatório Cross Asset uma tabela que confere algumas pistas sobre o impacto que o programa de flexibilização monetária poderá ter no mercado de obrigações europeu. Em primeiro lugar, a gestora explica qual é atualmente o volume de dívida viva emitida pelos distintos países. Da soma global de cada país exclui-se a dívida infranacional (emitida por exemplo pelas comunidades autónomas espanholas ou as landers alemãs), visto que o BCE referiu que apenas vai comprar obrigações do governo central.

Fazendo esta primeira triagem denota-se que Itália (1,8 biliões), França (1,56 biliões) e Alemanha (1,1 biliões) são os mercados maiores. No entanto, tendo em conta a segunda restrição imposta pelo Banco Central para a implementação do programa – o de não comprar dívida com vencimentos inferiores a dois anos nem superiores a 30 – o volume de obrigações que podem ser compradas reduz-se significativamente, com Itália (1,27 biliões), França (1,07 biliões) e Alemanha (776.000 milhões de euros) a manterem-se na posição de principais três países por tamanho. No entanto, a partir daqui é necessário incorporar a terceira condição imposta pela autoridade monetária: o que a autoridade monetária compra de cada país está acontece de acordo com o que cada Estado membro fornece ao BCE.

Neste sentido, tendo em conta que a Alemanha tem um peso de 25,7% no capital do BCE, a autoridade monetária comprará, a partir de agora até setembro de 2016, até 244.000 milhões de euros de dívida pública alemã, ou seja, 31,5% da dívida emitida pelo país. Tanto em termos absolutos como relativos, a Alemanha será o país que mais vai beneficiar do programa de compras do BCE. A comparação em termos relativos mostra que ainda assim países como Portugal ou Espanha irão ser também muito beneficiados pelo QE. No caso Portugal durante os próximos 18 meses o BCE irá adquirir até 24.000 milhões de euros, o que representa 24,9% de toda a dívida em circulação. Já no caso de Espanha serão adquiridos até 120.000 milhões de euros, o que perfaz 20,8% da dívida do país.

Na terceira coluna da tabela elaborada pela Amundi é feita referência à identidade dos detentores da dívida. Nela observa-se que em países como a Alemanha, o volume de obrigações na posse de entidades financeiras e seguradoras (600.000 milhões) representa mais de metade da dívida emitida (52,8%).

E o que é que isto significa? Num contexto em que os governos não estão a emitir mais dívida, e no qual aparece um novo comprador que vai adquirir obrigações a qualquer preço, e em que entidades financeiras e seguradoras, por causa da sua estrutura de negócios, vão continuar a manter ativos de dívida com máxima qualificação de crédito, os países core serão, teoricamente, os mais beneficiados, já que o impacto sobre o mercado de dívida alemã ou holandês poderá ser maior.

Segundo a Amundi, é provável que o programa de compra de obrigações do BCE tenha um impacto significativo no mercado de obrigações por três motivos: 1. Por causa do importante tamanho que representa, que equivale a aproximadamente um quinto do mercado de obrigações soberanas da zona euro e a mais de 10% de todo o mercado de dívida. 2. O programa está a chegar a um momento em que o mercado de obrigações da Zona Euro está a crescer muito pouco e é pequena a probabilidade de que a oferta líquida de novas emissões previstas para 2015 possa cobrir todo o programa de compras do BCE; 3. Contrariamente a outras regiões onde foram levados a cabo programas semelhantes de expansão quantitativa, as taxas negativas que se aplicam à facilidade de depósito do BCE vão potenciar as expectativas de um QE e vão conduzir as rentabilidades das obrigações dos governos core a curto e médio prazo para terreno negativo. Isso impulsionará a procura de rentabilidade entre o resto dos diferenciais ajustados por opções à disposição dos investidores. 

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