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Como um processo minucioso resulta numa sobre-exposição a ações dos EUA


A convite da plataforma de fundos UCITS IAM Investments, Jeff Lignelli, fundador da Incline Global e gestor do Incline Global Long/Short Equity, veio pela primeira vez a Lisboa descrever a um grupo seleto de investidores o processo de investimento do fundo e como este resulta numa evidente sobre-exposição aos Estados Unidos.

Lançado no seu formato UCITS em dezembro de 2015, o fundo tem mostrado um excelente track record desde então, quando comparado com os seus semelhantes. Com uma exposição líquida entre 40% e 80% é, como diz Lignelli, “uma estratégia adequada para quem quer estar exposto ao mercado acionista, mas com menos risco. É uma estratégia singular”.

O que faz deste fundo uma estratégia de investimento diferente?

Na resposta a esta pergunta o gestor é categórico ao responder: “O processo de investimento”.  Definindo-se como um gestor GARP – Growth At a Reasonable Price - o profissional destaca uma valuation média da carteira entre as 13 e 20 vezes os resultados por ação e uma free cash-flow yield entre os 4% e os 7%. Estas características resultam de um processo cujo primeiro passo passa por apenas comprar empresas que evidenciam um crescimento de receitas orgânico. “Sou um grande crente numa máxima de Warren Buffet que diz que ao longo do tempo o preço da ação vai acompanhar o crescimento dos resultados. Se temos uma empresa cujas receitas, resultados e cash-flows se estão a expandir, veremos provavelmente o preço a subir também. Mas é claro que têm que existir também forças favoráveis ao desenvolvimento do negócio”, explica Lignelli.  

“Interesso-me bastante pelas ideias de Charlie Munger, o sócio de Warren Buffet, e uma das coisas que aprendi com ele é que, na gestão investimentos, há muito a ganhar com ferramentas de reconhecimento de padrões, no sentido de identificar para o futuro investimentos com características que mostraram bons resultados no passado”, refere o gestor, introduzindo aquele que é o segundo pilar do processo. E de facto a equipa recorre a vários modelos próprios, no crivo dos quais todo e qualquer investimento deve passar.

Em terceiro lugar, todas as empresas que compõem as 35 posições longas na carteira do fundo têm que ser geridas por um CEO “de elevada qualidade”, que mostre ter a experiência e capacidade de gerir de forma eficiente a alocação de capital. “Acredito que as melhores empresas são aquelas que não só estão a crescer, mas cujo CEO sabe como fazer dinheiro alocando o capital, seja em aquisições, buybacks, dividendos ou outros. Neste ponto da minha carreira só quero investir em CEOs que procurem gerar tanto valor para os acionistas como eu procuro. Invisto pessoalmente uma parte significativa do meu património no fundo e apenas quero lidar com pessoas que têm os mesmos objetivos que eu. Sem exceções nesta regra”, destaca categoricamente Lignelli.

Por fim, o quarto passo prende-se pelo recurso a um processo de research  proprietário através do qual as empresas são analisadas, processo esse que resulta num relatório de entre 50 e 100 páginas sobre cada uma das empresas. “Um dos passos do processo passa pela contratação de empresas de recrutamento para encontrar antigos funcionários das empresas em análise. Acho muito importante saber o que realmente se passa, e as pessoas que lá trabalharam são as que melhor o podem explicar”, descreve o gestor. “Temos uma gestão diferente e isso tem gerado valor acrescentado”, finaliza.

Clara inclinação para os Estados Unidos

Numa carteira global em que 90% das posições longas são em empresas cotadas nos Estados Unidos, Jeff Lignelli não tem dificuldade em explicar porquê. “Vemos um cenário económico positivo nos EUA. Os resultados voltaram a recuperar e é expectável que Donald Trump introduza estímulos que poderão ser muito poderosos. Não só uma eventual descida de impostos corporativos terá um impacto direto na economia – mesmo que a redução acabe por ser menor do que o inicialmente proposto - mas também a eventual redução do imposto de repatriação poderá trazer de volta para o país mais de dois biliões de dólares que as empresas têm parqueados no estrangeiro”, explica.

Valuations

O profissional não se deixa iludir pelas afirmações de que os múltiplos de mercado estão mais caros nos EUA em comparação com a Europa: “Primeiro de tudo vemos os resultados das empresas norte-americanas a crescer bastante, mais do que historicamente. Depois, o que vemos é que o grande responsável da valorização do mercados nos EUA depois da eleição de Trump foi o sector da banca que viu os preços a subir de 10/11 vezes os resultados para 12/13 vezes. Há uns meses, antes das eleições francesas, analisei os componentes do CAC 40 e encontrei resultados curiosos. A L’Oréal, por exemplo, cotava com o mesmo múltiplo que a Estée Lauder. A Michelin estava mais cara do que a Goodyear. A Renault e Peugeot cotavam  com o mesmo múltiplo da General Motors. Os grupos Accor e Marriot também cotavam ao mesmo múltiplo. Apenas dois sectores se apresentavam mais atrativos em França. Por um lado, a Total estava mais barata que a Chevron ou a Exxon Mobil, mas mais importante, os bancos estavam mais baratos”, descreve o profissional.

Jeff Lignelli conclui: “Dizem que a Europa está mais barata do que os Estados Unidos, mas se fizermos uma equiponderação sectorial, esta diferença reduz-se significativamente. Isto acontece não só porque os bancos estão mais baratos, mas também porque na Europa não existe uma Amazon, Google ou Facebook, ou uma grande indústria de semicondutores como nos EUA. Dizer que a Europa está barata apenas com base nos múltiplos não é uma afirmação correta”.

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