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Como está a disrupção tecnológica a afetar o mercado obrigacionista?


“A única grande referência que tenho de Donald Trump é de há 15 anos, quando veio aos escritórios da Franklin Templeton para tentar vender dívida high yield e os seus casinos em Nova Jersey”. O que nos disse foi diferente do que fez depois e creio que, nesta ocasião, com Trump na presidência, será igual”. A anedota conta-a Roger Bayston. Diretor de obrigações de Franklin Templeton Investments e gestor do Franklin U.S. Low Duration Fund, classificado como Blockbuster e Consistente pela Funds People.

Bayston acredita que o atual presidente dos EUA “não tem uma grande estratégia que se possa visualizar, mas devemos esperar um cenário imprevisível”. O que se passa é que, continua, “os mercados gostam das suas políticas, especialmente a reforma fiscal e a repatriação de dinheiro”. O especialista fez estes comentários no contexto de uma apresentação sobre ativos americanos da Franklin Templeton Investments nos seus escritórios em Madrid. Durante a apresentação, Bayston admitiu que está a receber muitas perguntas por parte de investidores e clientes para considerações a curto prazo. Perante este comportamento, esclarece que “o mais importante para nós são as considerações a longo prazo”.

Desta forma, o gestor reivindica que o ambiente económico nos EUA é benigno, ainda que a recuperação atual seja mais débil do que as anteriores: “os investidores devem ter em conta que, dentro da tendência de crescimento global, a grande mudança não foi a trajetória de crescimento dos Estados Unidos ou da Zona Euro, mas sim da China, que já não cresce a taxas de duplos dígitos, e isso causou um impacto enorme”.

Também considera como um fator de apoio à economia norte americana que a energia se mantenha a preços estruturalmente mais baixos: “acreditamos que vai ser um fator de apoio à atividade económica, porque ajuda a baixar os gastos de empresas e consumidores”. Bayston acrescenta que “a queda dos preços tem que ver com a disrupção tecnológica: o petróleo tem que competir com mais tipos de energia pelo que não temos uma convicção forte que regresse a níveis mais elevados”.

O especialista insiste que “este prognóstico é chave para descartar fortes pressões inflacionárias no futuro”, especialmente tendo em conta que, segundo o seu prognóstico, “a Reserva Federal se dirige para um período de subidas de taxas e vendas de Mortgage-Backed Security (MBS)”.

Impacto tecnológico nas obrigações

Dentro dessas considerações a longo prazo que preocupam a Franklin Templeton, a disrupção tecnológica é uma das mais importantes da lista. “A tecnologia está a mudar rapidamente as empresas e as nossas próprias vidas”, afirma o gestor. Este considera que os avanços tecnológicos também são chave para as obrigações, pelo crescimento exponencial que experimentou esta classe de ativos nos últimos dez anos: tomando como referência o índice Bloomberg Aggregate, observa que em 2007 o volume de trading de dívida investment grade ascendia a 1,7 biliões de dólares e representava 19% do universo; em 2017, o valor de mercado da dívida investment grade ascende a 4,8 biliões de dólares, com uma quota de 25% do mercado.

Bayston afirma que “este tsunami de dívida corporativa de capital aberto que está a chegar ao mercado é um problema potencial, porque os investidores estão a começar a perceber o impacto negativo das mudanças disruptivas sobre os seus investimentos”. Coloca um exemplo real para compreender melhor a situação: há algum tempo, a General Motors pôs-se em contacto com a Franklin Templeton para negociar uma emissão de dívida. Os representantes do fabricante de automóveis explicaram que o grupo se tinha proposto a cinco anos visto que a sua principal fonte de rendimentos já não era o fabrico de automóveis, mas sim o desenvolvimento de software e outras tecnologias inteligentes para esses automóveis.

A consequência que observou Bayston foi que os investidores começaram a solicitar títulos da General Motors que não superassem os cinco anos de duração. “Estas mudanças rápidas estão a afetar a dívida real das empresas, criando uma espécie de duração da distorção”, denuncia o especialista. A resposta da Franklin Templeton a este desafio tem passado por desenvolver uma análise exaustiva para identificar aquelas empresas que possam ser mais vulneráveis à disrupção.

“O risco é muito mais importante do que o que vai fazer a Fed”, declara o gestor. Este também espera que, à medida que as empresas reflitam essa disrupção, se produza uma tendência de clivagem de empresas ou criação de spin offs, de forma a separar as partes mais rentáveis dos negócios das que não o são. É uma tendência que o especialista compara com a criação de bancos maus na Europa.

O seu conselho é que os investidores protejam as suas carteiras nos próximos dois a três anos: “a diferença relativamente a ciclos anteriores é a disrupção tecnológica; os investidores precisam de procurar proteção”, sentencia.

Atualização do fundo

O gestor dá algumas noções sobre a construção atual da carteira. Em primeiro lugar, afirma estar mais cauteloso, pelo que reduziu a exposição ao risco, trocando ativos mais arriscados por outros de maior qualidade, tendo por exemplo vendido títulos de high yield e comprado dívida sénior ou CLOs. Desta forma, o fundo fez uma rotação do crédito corporativo norte americano para dívida financeira, que “atualmente oferece mais segurança do que os mercados corporativos, pois os bancos estão de boa saúde e os padrões de concessão de crédito são mais rígidos do que no passado”.

O outro grande movimento tem sido o aumento da duração: “No ponto atual do ciclo, é necessário acrescentrar duração ao portefólio caso já se tenha muito crédito em carteira, porque é necessária uma compensação”, justifica o especialista perante o contexto de subida das taxas de juro.  

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