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Como a mudança de sentimento sobre o sector bancário está a ter impacto no mercado de obrigações?


Poder-se-á afirmar que as preocupações migraram do sector da energia para o sector bancário? Esta mudança no sentimento dos investidores começou a verificar-se de forma mais evidente na última semana, especialmente depois do Deutsche Bank ter divulgado resultados negativos em 2015. Como consequência, as ações dos bancos colapsaram as yields das obrigações do sector dispararam, provocando, por exemplo, que o índice iTraxx Financials Subordinated Debt CDS atingisse um máximo de três anos e meio nos 331 pontos base.

Especialistas da Aberdeen comentam que “as obrigações mais afetadas foram as obrigações CoCos, que pagam um cupão elevado, mas podem ser convertidas em ações caso certos limites sejam quebrados”, acrescentado que as mesmas “estavam a subvalorizar os riscos do abrandamento do crescimento e dos lucros, a maior exposição ao crédito aos segmentos problemáticos das matérias primas e a potencial deterioração de valor”, comenta Regina Borromeo, gestora da Brandywine (filial da Legg Mason Global AM).

A especialista indica que a volatilidade recentemente registada no sector bancário foi impulsionada pelos riscos associados a entidades concretas, como o Deutsche Bank (preocupações relativas a pressões ao nível das receitas, posições em derivados e perdas de capital), mas também a um factor mais preocupante, dado que  a especialista considera que a banca entrou numa fase “na qual os riscos idiossincráticos podem converter-se em sistemáticos”.

“Desde a crise financeira mundial e a crise de dívida pública europeia, os políticos e responsáveis pela política monetária esforçam-se por reduzir os riscos dos bancos a nível mundial e eliminar a relação entre o risco de dívida pública e a dos bancos, aumentando os requisitos de capital, chamando os titulares das obrigações e ações dos bancos a participar na resolução de instituições e endurecendo a regulação. Por isso, apesar de ter mudado um pouco nos últimos anos, um aspecto fundamental do sistema bancário continua a ser a capacidade de transmitir confiança”, resume a representante da Brandywine.

Esta expressa a sua esperança em que “os responsáveis políticos tentem estabilizar o sistema antes que se produza uma crise sistémica”. Deste modo, recorda que o BCE “conta com um amplo arsenal de ferramentas para o fazer, tal como o aumento da dimensão do programa de compra de ativos ou a ampliação do número de classes de ativos passíveis de serem adquiridas pelo mesmo”. Na sua opinião, “o problema passaria pela demora na altura de tomar a decisão”.

Segundo Joseph V. Amato, diretor de investimentos em ações da Neuberger Berman, o catalisador da mudança de sentimento no que respeita aos bancos pode ter sido a decisão inesperada do Banco do Japão de aplicar uma taxa de juro negativa aos bancos nos depósitos na instituição. “Em vez de estimular o mercado, este movimento surpresa reduziu a fé na Abenomics e elevou os medos de uma espiral global de redução de taxas dos bancos centrais”, indica Amato. Este destaca outros exemplos recentes neste sentido: a decisão do Riksbank (banco central sueco) de cortar a taxa de depósito para -0,5%, ou as declarações de Janet Yellen na semana passada perante o Congresso dos EUA, nas quais insinuou que a Reserva Federa estaria a estudar esta medida, caso seja necessário o recurso a mais estímulos.

As taxas negativas (as curvas de yields não estão tão flat desde 2007) claramente não são positivas para as margens de lucros dos bancos e alguns bancos em apuros podem implicar um endurecimento das condições financeiras para o conjunto da economia”, adverte o especialista da Neuberger Berman, em jeito de conclusão.

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