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As razões pelas quais Janet Yellen mudou o seu discurso


O mercado continua a rever em baixa as previsões de subida de taxas de juro perante o tom relaxado que Janet Yellen, a presidente da Reserva Federal (Fed), utilizou no seu último discurso sobre as perspectivas económicas. Os dois indicadores que a Fed tem que “controlar” - a inflação e o emprego – estão a verificar uma tendência ascendente. Parece que Yellen se está a centrar mais em fatores internacionais como o crescimento global, o dólar americano e a China. É provável que esta mudança do enfoque na economia norte-americana para os fatores internacionais, tenha como resultado menos subidas de taxas de juro no curto-prazo. No entanto, a inclusão explícita destes fatores globais nas considerações da Fed resultará em mais incerteza e menos previsibilidade sobre as futuras subidas, já que os investidores necessitarão monitorizar um maior número de fatores que influenciarão estas decisões.

No entanto...porque mudou a Fed o seu discurso e se fixa agora em fatores internacionais no lugar da inflação e desemprego? Henrik Lumholdt, estratega-chefe do Banco Inversis, considera que o problema é que “o mundo é complicado. Tem um ‘formato’ que não vimos no passado. O peso dos emergente é muito mais elevado e a internacionalização dos efeitos muito mais relevante. As decisões da Fed afetam outras variáveis que se influem entre elas, devolvendo o efeito aos EUA. Neste sentido, assinalar que se vai normalizar a política monetária teria um claro efeito sobre o dólar, que se apreciraria. O fortalecimento do dólar teria um impacto sobre a economia chinesa, que abrandaria, e também sobre o petróleo, cujo preço baixaria, dada a sua relação inversa com a moeda dos EUA. A queda do preço do petróleo, por sua vez, contribuiria para a crise dos emergentes...e todos estes efeitos voltariam a afetar os EUA”.

Janet Yellen tentou explicar isto aos mercados no seu discurso de setembro, quando alegou fatores externos para não subir as taxas. Os investidores não gostaram, mas é a verdade. Os EUA não estão sozinhos no mundo. Tudo o que acontece no panorama internacional os afeta. Não tem porque subir as taxas se não há pressões inflacionistas. O contexto atual é bastante diferente”, afirma o economista. Segundo explica, a curva de Phillips está plana, o que tem sido uma complicação para a autoridade monetária. “À Fed, custa aceitar que com o emprego em níveis tão baixos, não devem subir taxas, e daí o terem feito em dezembro”. A teoria determina que quando sobe o desemprego, baixam taxas e vice-versa. Assim tem sido no passado”. Inclusivamente há quem aponte já a possibilidade de um recuo na política monetária, ou seja, descidas de taxas.

A Fed poderia voltar a subir taxas, mas é muito mais provável que tenha que baixá-las”, advertia Austan Goolsbee, ex-assessor de Barack Obama, à CNBC. Parece evidente que fazê-lo seria reconhecer que o movimento de dezembro foi um erro. O que não deixa dúvidas é que interpretar o que Yellen quer transmitir é agora mais difícil. Segundo Luca Pesarini, gestor do Ethna-AKTIV, “as mensagens que está a passar são contraditórias. Em setembro não subiram taxas alegando fatores externos, como a China. Deu a entender que a situação era complicada e o mercado reagiu com quedas. Em dezembro subiram as taxas, prevendo que em 2016 subiriam outras quatro vezes. A situação económica parecia boa, na altura. Em março, reduziram as suas estimativas para duas subidas e já se falava, inclusivamente, da possibilidade de um QE IV. Em sete meses tivémos três discursos distintos. A sua mensagem é confusa e difícil de interpretar. A pergunta é...terá a Fed a situação sob controlo? Começo a ter as minhas dúvidas”, assegura.

Mas não será um único banco central que mudou o seu discurso. O BCE também o fez. “O BCE parece ter mudado o seu discurso para se focar mais na transmissão do crédito ao sector privado. A extensão da elegibilidade de obrigações corporativas para o programa de compras começará no final do segundo trimestre. O BCE comprará unicamente obrigações com grau de investimento emitidas por empresas não financeiras estabelecidas na Zona Euro. No dia de hoje, contamos ainda com pouca informação sobre os detalhes práticos do PSPP (Public Sector Purchase Program). Comprometendo-se a financiar, implicitamente, as empresas, o primeiro objetivo do BCE tem sido conter as tensões experienciadas recentemente no mercado de crédito euro, mas aumenta o cepticismo sobre o impacto desta medida no crescimento económico, embora seja claro que os reais beneficiários das medidas serão os investidores neste mercado”, explicam da Amundi.

 

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