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As consequências imprevistas da repressão financeira


Desde do início da crise financeira mundial, em 2008, que os principais bancos centrais do mundo desenvolveram medidas extraordinárias – tão extraordinárias que, como apontam muitos especialistas, a economia mundial avança por terrenos desconhecidos e onde não se encontra uma saída. Estas medidas têm como principal objetivo levar a inflação para níveis razoáveis, estabilizar mercados financeiros e estimular o crescimento económico. Neste momento está por se ver a sua eficácia a longo prazo, mas parece que teve um efeito inequívoco: a repressão financeira.

O termo repressão financeira – introduzido pelos economistas Edward Shaw e Ronald McKinnon em 1973 – faz referência a um conjunto de políticas para orientar o financiamento dos governos que normalmente se destina a outros investimentos, com o objetivo de reduzir a dívida pública. Um exemplo atual: as baixas taxas de juro – que chegam a ser negativas nalguns casos – estão a financiar a dívida pública da maioria dos países da Zona Euro.

Embora, como afirmam as autoridades monetárias os benefícios das medidas, como é o caso de manter as taxas de juro próximas de 0%, ou levar a taxa de depósito para níveis negativos e ainda a compra de dívida em grande escala superam os custos a longo prazo. Publicações como aquela que acaba de publicar a Swiss Re assinalam claramente as consequências imprevista desta repressão financeira, que vão desde da penalização das poupanças ao aumento das desigualdades. A criação de potenciais bolhas de ativos, tal como ao aumento da inflação ou a deterioração da reputação dos bancos centrais também fazem parte desta lista de consequências.

Um travão na economia real

O relatório fornece alguns números sobre os efeitos da repressão financeira para os imóveis e para os investidores a longo prazo, como companhias de seguros e fundos de pensões: só nos Estados Unidos, a queda histórica das taxas de juros supôs que os aforradores deixassem de entregar 470.000 milhões de dólares líquidos, no período de 2008-2013. No mesmo período o rendimento dos investimentos das seguradoras norte-americanas e europeias – que investem maioritariamente em obrigações – sofreu um decréscimo de 400.000 milhões de dólares, o que equivale a cerca de 0,8% da média anual da totalidade dos ativos.

A Swiss Re, que desenvolveu o primeiro índice que permite medir a repressão financeira, denuncia no seu relatório que as medidas adotadas pelos bancos centrais não apenas reduzem a capacidade dos investidores de longo prazo de canalizar algum financiamento para a economia real como também ameaçam o normal funcionamento dos mercados de capitais, já que as taxas de juros artificialmente baixas desincentivam a poupança necessária para financiar projetos que estimulem o crescimento e reduzam a pressão para que os responsáveis políticos apliquem as reformas estruturais necessárias.

O Investimento em infraestruturas como classe de ativos

Para a empresa helvética, o investimento em infraestruturas oferece aos grandes investidores institucionais, como seguradoras e fundos de pensões, um instrumento adequado para equilibrar as suas obrigações a longo prazo, com a geração de fluxos constantes. No entanto, a incerteza regulatória e a falta de uma classe de ativos transparente, mantêm as subscrições em infraestruturas em níveis inferiores ao desejável.

Nesta situação, na Swiss Re defendem a criação de um instrumento de dívida privada – uma classe de ativos em si mesma – que permita canalizar a poupança de longo prazo para o desenvolvimento de infraestruturas, um sector que, segundo as estimativas, requererá entre 50 a 70 mil milhões de dólares até 2030 para financiar projetos de transportes, energia e construção.

Proposta da Swiss Re para a criação de um novo instrumento negociável de investimento a longo prazo para o financiamento de infraestruturas

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