As consequências da última mensagem da Reserva Federal na indústria de ETFs


O último relatório mensal sobre a evolução da indústria de ETP publicado pela BlackRock revela desta vez que as ações, com entradas líquidas de 15.400 milhões de dólares, deram um grande contributo para a indústria mundial de produtos cotados, que no mês passado registou um saldo líquido global na ordem dos 12.900 milhões de dólares, porque no final do mês algumas das principais categorias registaram mudanças no seu momento de mercado.

“A indústria continua a servir de barómetro temporal para o panorama global de investimento, e este ano o sentimento de mercado foi difícil de determinar devido aos sinais mistos de crescimento económico, e devido às preocupações acerca das valorizações, por causa dos impressionantes ganhos obtidos pelas ações em 2013”, explica Dodd Kittsley, responsável de investigação de ETP da BlackRock, e Raj Seshadri, responsável pelo ETP Insights da gestora. Iván Pascual, diretor de vendas da iShares destaca também que o mês passado “foi muito positivo para os produtos cotados a nível global, mas com especial destaque para o excelente comportamento em Espanha e Portugal”.

Num mês que ficou marcado pela nova mensagem da Reserva Federal dentro da sua política de forward guidance, ambos os especialistas assinalam que o investimento  em ETP de bolsa norte-americana  (com um valor de cerca de 15.800 milhões de dólares) se manteve estável, até ao momento em que a presidente da Fed, Janet Yellen, deu a entender que as taxas de juro poderiam subir antes do previsto; a partir desse momento, os fluxos de entrada  diminuíram nesta classe de ativos.

“Na ausência de um catalisador, os investidores começaram a evitar os segmentos mais caros do mercado no final de março”, indicam os autores do estudo.  Por exemplo, enquanto nos EUA os ETP sectoriais captaram 3.000 milhões de dólares, situando assim o investimento em 10.100 milhões desde o início do ano, os ETP da área da saúde perderam 1.200 milhões de dólares depois de 20 de março (aquando da reunião do FOMC), e encerraram o mês a captar 4.000 milhões de fevereiro. “O movimento em busca de valor é positivo para os ETP financeiros, que acumularam 1.600 milhões de dólares em março, assim como para os fundos de ações norte-americanos de grande capitalização, que captaram 5.500 milhões de dólares durante o mês, e que continuam a estar mais baratos para os fundos de pequenas empresas capitalizadas”, acrescentam.

Outra categoria que também terminou março com um saldo positivo foi a dos fundos que replicam o comportamento do ouro: atraíram 600 milhões de dólares em março, o que se converte no segundo mês consecutivo de bons resultados. “Ainda assim é improvável que esta categoria consiga atrair mais dinheiro num contexto em que o dólar se está a reforçar, e em que as taxas de juro subirão no futuro”. O último guia da Fed sobre as taxas, traça este cenário como mais provável, com o ouro a ceder 7% no final de março”, constatam os especialistas da BlackRock.

Mudança brusca no timing do mercado

Diferente foi o contexto para os ETP de ações emergentes. Em março existiram indícios de que a pressão vendedora diminuiu, já que os resgates reduziram-se até aos 1.800 milhões de euros. Registaram-se  fluxos de entrada nos últimos seis dias do mês, tanto nos fundos de caráter geral, como naqueles que estão centrados num único país. O relatório inclui, de facto, um colapso de ambas as categorias. Por um lado, o conjunto de fundos cotados que investem num único país emergente sofreram resgates na ordem dos 1.500 milhões de dólares, embora Kittsley e Seshadri reforcem que grande parte desta quantidade “é proveniente de fundos com exposição à China, cujo PMI de março indicava uma contração pelo terceiro mês consecutivo, tendo caído para um mínimo de há 8 meses, alcançando os 48,1 pontos”.

Outra mudança observada pelos especialistas na última semana do mês passado, é o início de um registo de subscrições líquidas, “com os investidores a anteciparem que o governo chinês vai dar passos no sentido do estímulo de economia”. Portanto, excluindo os resultados da China, os fluxos de ETP que investem num único país emergente mantiveram-se estáveis até meio do mês, tendo depois atraído 1.300 milhões de dólares graças às notícias vindas da Rússia, Coreia do Sul e México. “Temos notado que os fluxos dos ETFs de ações de mercados emergentes estão aos poucos e poucos a fluir, e que, para além disso, alguns investidores estão a adoptar uma alocação de ativos mais localizada, usando ETFs de um só país para obter exposições de nicho”, acrescenta Iván Pascual. 

Também se registou uma mudança de tendência nos ETP de ações europeias e japonesas, que foram as grandes impulsionadoras dos volumes de investimento ocorridos durante o ano passado, ao gerarem 60% dos 110.00 milhões de dólares atraídos por produtos cotados de países desenvolvidos, excluindo os Estados Unidos. Março foi o primeiro mês de resgates em ambas as categorias, devido “à lentidão” com que estão a aparecer  novos sinais de melhoria económica.

Desta forma, 700 milhões de dólares saíram dos ETP de bolsa nipónica em março, o que configura os primeiros resgates em dois anos. Os investidores evitaram o possível efeito negativo da subida do IVA japonês de 3% para 5%, que se teme que diminua o consumo e, consequentemente, a recuperação económica. Paralelamente, os fundos cotados de ações pan-europeias puseram “um ponto final” aos 10 meses consecutivos de entradas, ao registarem resgates equivalentes a 900 milhões de dólares, neste caso por causa da lentidão com que a recuperação está a chegar ao continente, juntamente com a revisão em baixa das expectativas dos lucros empresariais em 2014 e os receios à volta das consequências do conflito geopolítico entre a Rússia e a Ucrânia. Kittsley e Seshadri acrescentam que outra explicação plausível é o receio acerca da deflação na zona euro, depois da leitura anualizada de março da inflação ter sido de 0,5%.

Ainda assim, os fluxos de saída de ETP de obrigações foram ainda maiores: mais concretamente 3.200 milhões de dólares. A constante captação de ativos protagonizada pelos fundos high yield, dívida corporativa com grau de investimento e broad/aggregate não conseguiram neutralizar os importantes resgates registados pelos ETP de dívida pública norte-americana, no valor de 9.500 dólares. “Tendo em conta que as taxas de juro permanecem em mínimos históricos, os investidores de obrigações recorrem cada vez mais a produtos cotados, com exposição a dívida corporativa e de alto rendimento ou high yield em busca de rendimentos mais atrativos num contexto de baixa rentabilidade”, conclui o diretor de vendas da iShares para a Ibéria.

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