Análise de resultados do quarto trimestre das empresas europeias: está a notar-se o efeito da depreciação do euro?


As empresas europeias encerraram 2014 num bom nível. Com dados de 85% da capitalização do mercado parece que os lucros tiveram um crescimento interanual de 8,9% durante o quarto trimestre, com um aumento dos ganhos que se acelerou em muitas das principais economias europeias. No início de 2014 apenas as grandes economias como o Reino Unido registavam um crescimento dos lucros, mas a aceleração generalizada sugere que a recuperação se estendeu agora a toda a região. A depreciação do euro foi um dos factores que mais contribuiu para a melhoria dos resultados do quarto trimestre de 2014. E não foi apenas positiva para os resultados, também se traduziu num crescimento das receitas de 6,7% em termos interanuais.

(Fonte dos gráficos: Thomson Reuters, Stoxx, Woldscope, Bloomberg e J.P. Morgan AM, com dados de 11 de março)

É provável que o impacto de um euro mais débil esteja refletido também nos resultados do primeiro trimestre. “Se no quarto trimestre de 2014 o dólar rondou, em média, 1,25 face ao euro, desde o início do ano a média caiu até aos 1,14 e a paridade está cada vez mais próxima, o que nos leva a pensar que as empresas europeias continuarão a beneficiar da debilidade da moeda única durante os próximos meses”, explica Alex Dryden, analista de mercado da J.P. Morgan AM. No entanto é importante ter em conta que o Stoxx Europe 60 cobre sete moedas distintas, pelo que nem todas as empresas do índice serão beneficiadas pelas ações do BCE.

“Não existe uma representação da maioria do índice pelo que uma exposição ampla ao benchmark europeu não aproveitará ao máximo a depreciação da moeda única”, afirma Dryden. “Para isso, os investidores terão que se centrar em empresas localizadas na união monetária que gerem grande parte das suas receitas no estrangeiro. No trimestre passado as empresas do Stoxx Europe 600 que registaram mais de 50% das suas receitas no estrangeiro, superaram ao nível das vendas as empresas orientadas para o mercado europeu”. Para além disso, nem todos os sectores registaram crescimento positivo em termos de lucros durante o quarto trimestre. O sector financeiro (com aproximadamente 25% de peso no Stoxx Europe 600; o comportamento deste sector tem uma influência decisiva nas somas gerais dos lucros da região), foi impulsionado pela melhoria do contexto de crédito

Fonte dos gráficos: Primeiro: J.P. Morgan Economic Research , J.P. Morgan AM. Segundo: Stoxx, FactSet, J.P. Morgan AM.

O aumento da procura de crédito costuma demorar dois trimestres a ter reflexo nos resultados das empresas financeiras, tal como começa acontecer agora”, assegura. A situação foi mais complicada para os sectores defensivos, como as telecomunicações e a saúde. Também teve impacto nas empresas energéticas, que registaram fortes quedas de lucros devido à queda do preço do petróleo, mas também por causa do mau comportamento das empresas energéticas, que prejudicou de forma global os lucros. “No entanto, se eliminarmos o impacto do preço do petróleo nestes títulos, os lucros das empresas europeias (excluindo o sector da energia) cresceram cerca de 14,3% interanualmente no quarto trimestre de 2014”, assegura o analista da J.P. Morgan AM.

Apesar desta recuperação, os lucros das empresas na Europa continuam ancorados em níveis muito baixos. Enquanto os ganhos das homólogas norte-americanas se situam aproximadamente em cerca de 13% acima do máximo anterior, os lucros na zona euro continuam em estado de apatia em cerca de 32% abaixo do seu máximo anterior. Olhando para o futuro, James Sym, gestor de fundos de ações europeias na Schroders considera que estão dadas as condições para que os lucros das empresas da zona euro superem os das homólogas norte-americanas durante este ano e, por fim, assistiremos à fase seguinte de subidas nas cotações. “Os lucros das empresas europeias parecem estar posicionados para a recuperação”.

Segundo explica, o colapso dos preços do petróleo constitui um factor chave que pode favorecer a recuperação da zona euro. “O embaratecer dos preços do petróleo não impacta apenas os preços dos combustíveis, mas também aqueles bens fabricados a partir de produtos derivados do petróleo. Os nossos cálculos sugerem que a queda dos preços da matéria prima representa um estímulo de mais de 1.000 euros para cada família europeia, o que seria equivalente a um corte de impostos substancial”. A isto deve-se juntar o efeito da desvalorização do euro face ao dólar e a considerável descida dos custos de financiamento, que supõem um importante estímulo, em particular para as pequenas e médias empresas. “Estes factores fizeram ‘reset’ ao ciclo económico e devolveram-nos a fase de recuperação”.

Objetivo: o aumento do investimento das empresas

Outro factor importante que o gestor da Schroders cita é que os lucros do sector bancário, submetidos a níveis de pressão especialmente elevados, parecem dispostos a registar uma melhoria durante este ano. Um indicador que seguem de perto é a questão dos empréstimos bancários do BCE. “Esta análise mostra que os critérios de concessão se estão a tornar mais relaxados na zona da moeda única depois dos períodos de escassez de crédito que caraterizaram a crise financeira mundial (2008-2010) e a crise da zona euro (2012-2013). Continuamos a ter especial interesse na evolução  da procura do financiamento por parte das empresas, já que a auto-sustentabilidade de qualquer recuperação económica chega pela mão do investimento”.

“Os investimentos das empresas com ativos imobilizados caíram na maioria dos países da zona euro e os investimentos expressos em percentagens de faturação rondam os mínimos. Os indicadores principais, como os inquéritos de confiança dos consumidores e das empresas, mostram-se propensos a um aumento do crescimento dos investimentos em ativos imobilizados, muito embora ainda não se tenham materializado. Ao ocorrerem, seria altura também dos lucros melhorarem, concretamente se as empresas começarem a compensar o défice de investimentos a que temos assistido nos últimos anos”, afirma. Neste contexto, o especialista acredita que é possível que as ações cíclicas (ou seja, as mais sensíveis ao ciclo económico) e com valorizações acessíveis sejam as mais bem posicionadas para registar uma melhor rentabilidade.

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