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"Acreditamos que uma instituição financeira internacional poderá ter uma notação melhor do que a do país"


A Dagong é uma agência de rating chinesa, com uma gestão completamente privada. A empresa está a construir, atualmente, a sua estratégia na Europa, região onde iniciou a sua atividade em 2013. Saiba mais detalhes, lendo esta entrevista a Ulrich Bierbaum, diretor geral da Dagong Europe

Como diretor geral da Dagong Europe, é seguramente a pessoa mais indicada para nos explicar a história da marca Dagong...

A Dagong Global foi fundada há 20 anos pelo nosso único acionista. Somos a maior agência privada de rating com cerca de 30% do mercado chinês. Além disso, a Dagong Global também atribui notações de crédito a dívida soberana de diferentes países de todo o mundo, chamando a atenção do mercado. Desde junho de 2013 que a marca Dagong se estabeleceu na Europa, através da Dagong Europe, fornecendo ao mercado de forma regular alguns researchs e ratings de emitentes europeus. A nossa expansão foi sendo bem sucedida e coincidiu com a recente tendência de saída do investimento chinês para a Europa. Por último, com a abertura do mercado de capitais na China e a internacionalização do renminbi, os investidores chineses terão mais oportunidades de investimento na Europa; por isso, será para esses investidores uma situação “reconfortante” ter na Europa uma marca nacional como a Dagong. Para Dagong Europe é uma missão e um privilégio ser uma ponte de confiança, que reúne investidores chineses e as empresas europeias.

Qual poderá ser o impacto dos vossos ratings para os investidores chineses?

Para exemplificar posso falar do caso do Novo Banco. Apenas algumas semanas depois de termos atribuído classificação ao banco antecessor – o Banco Espírito Santo – foi assegurado, a partir do China-Export-Import Bank, um empréstimo de 200 milhões de dólares. Além disso, a China Fosun International permanece em negociações exclusivas com o Banco de Portugal para a compra do Novo Banco*. Outro exemplo é a classificação de rating que fizemos da seguradora Euler Hermes (EH), uma filial da Allianz, que obteve um grande mandato de recolha de material por parte do Huawei Group. A EH reportou que a nossa classificação apoiou a conclusão do contrato a longo prazo com a Huawei. Recentemente também avançámos mais no nosso tradicional papel de classificação de atribuição de rating a mercados com programas de dívida, bem como a emissões de dívida, nomeadamente com o rating AA+ atribuído ao NRW.Bank, o banco de desenvolvimento da região da Renânia do Norte-Vestfália, na Alemanha. O banco, que opera com uma política regional, usou o rating para contactar ainda mais com os investidores asiáticos e chineses, pelo que solicitaram à Dagong Europe para avaliar as próximas emissões.

Mas não é talvez “precipitado” referir que esses investimentos foram feitos apenas tendo por base os vossos ratings?

Sim... no entanto podemos alegar ser uma parte muito relevante das fontes de informação que os investidores procuram e analisam antes das suas decisões de investimento. Podemos comprovar isso através de dois aspectos. Em primeiro lugar na conexão com o investidor chinês: nós apenas beneficiamos do facto de sermos um “fornecedor de escolhas” que é originário do mesmo país, através do que se pode chamar de uma “vantagem de confiança”. Esse resultado já é visível hoje, com 40 novos registos mensais de utilizadores no nosso site, sendo a maior taxa de atividade proveniente de utilizadores com IP da China ou de Hong Kong. Resumindo, num curto espaço de tempo, a Dagong Europe tem-se posicionado como um serviço premium para os investidores chineses.

Quantos ratings têm neste momento?

Atualmente temos quatro rating públicos e quase metade das nossas receitas são provenientes dos ratings privados. São duas as conclusões principais sobre o nosso trabalho: em primeiro lugar a Dagong Europe não é uma agência de notação financeira para atribuir uma classificação “desejada” ou a notação mais elevada. Outra conclusão é que os ratings confidenciais por si só podem criar um enorme valor para o emissor e para um número limitado de investidores.

Qual a dimensão da empresa e quais os planos para o futuro?

Na Europa, começámos com 24 pessoas, sendo que 5 são analistas, e outras duas estão alocadas ao departamento de política de crédito, existindo ainda um elemento responsável pelo compliance. Atualmente estamos a planear qual o momento certo para começar a atribuir ratings a covered bonds no mercado, já que tem sido muito solicitado pelos nossos clientes. Temos ainda planos para crescer em termos geográficos, mas sempre de forma cautelosa e proporcional. Não acho que seja necessário ter um escritório num país para sabermos mais sobre ele. Temos sede em Milão com uma equipa constituída por 11 nacionalidades.

Qual é a vossa metodologia de rating?

Em primeiro lugar a nossa metodologia de crédito dedica grande atenção aos riscos de médio e longo prazo, sobretudo porque a abordagem do investidor típico chinês é de “comprar e manter”, o que significa que tendem a manter o investimento até à data de prescrição. Não faz sentido que os ratings flutuem à mesma velocidade das ações. Em segundo lugar damos mais ênfase  ao aspeto qualitativo, já que acreditamos que nos fornece uma imagem mais clara da direção para a qual caminha a entidade no médio e longo prazo.

Por último, e mais importante, concentramos a nossa análise numa instituição por si só, de forma independente, em vez de ter como ponto de partida o contexto macroeconómico. Por exemplo, todos nós nos lembramos que houve descidas de rating dos bancos de forma automática durante a crise do euro, após a queda das notações soberanas. Acreditamos que uma instituição financeira internacional poderá ter uma notação melhor do que a do país, se tiver um modelo de negócios estável e uma estratégia bem sucedida.

*A entrevista foi feita antes do processo de venda ter chegado ao fim. 

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