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A cimeira da desesperança


A época estival aparentou trazer à UE bom-senso e, sobretudo, adopção de efectivas medidas que conduzissem à superação do que, começando por ser uma crise de dívidas soberanas, depressa se generalizou e transformou numa crise do euro e dos seus mecanismos de governação, numa crise económica e numa gravíssima crise social ilustrada por mais de 25 milhões de desempregados. A cimeira de Junho pareceu superar as proclamações e semânticas e partir para a adopção de um conjunto de medidas que nos domínios da união bancária, fiscal e orçamental e da união política dotassem a UE de um verdadeiro «poder de fogo» para enfrentar as ameaças dos mercados. Depois, o Tribunal constitucional alemão – embora com alguns condicionalismos – deu luz verde à participação da Alemanha no MEE. No mesmo dia, Durão Barroso quis recuperar alguma iniciativa política e avançou com a ideia de evolução da UE para uma Federação de Estados-Nação, conceito que, carecendo de aperfeiçoamentos, tem a virtualidade de enquadrar o debate político que se impõe. Finalmente, o BCE assumiu a disponibilidade para a compra de dívida soberana dos Estados da eurozona nos mercados secundários. Indubitavelmente, criou-se um clima que legitimou alguma esperança.

Mudada a estação, o clima outonal regressou à UE. Bastou mais uma Cimeira europeia, do final da passada semana, e o aproximar das eleições na Alemanha, para a Chanceler Merkel a ter morto logo à nascença quando, à entrada dos trabalhos, declarou não serem expectáveis grandes resultados. Esses seriam tomados apenas na Cimeira de Dezembro. Regressava-se ao método que caracterizou os tempos recentes da UE – uma sucessão de Cimeiras que adiam medidas concretas sempre na expectativa de que na próxima é que elas surgirão. Tem sido assim desde o início da crise e foi por ser assim que tardou a ajuda no resgate à Grécia – porque na altura também havia eleições (regionais) na Alemanha e Merkel não se quis comprometer. Perdeu as eleições e retardou, com consequências irreversíveis, a postura europeia face a Atenas. Ninguém ganhou e todos perderam.

À luz desta realidade, o que saiu do Conselho Europeu foi manifestamente pouco face à urgência da situação. A Espanha continua a assustar; a Itália não pode ser dada por salva; os avanços em termos de união bancária são precários e, sobretudo, vagos; as divergências do outrora motor europeu constituído pelo eixo Paris – Berlim cada vez mais evidentes; o Reino Unido dá mostras de cada vez se querer distanciar mais desta União pretendendo reverter a seu favor a desunião patente; e o número de Estados intervencionados já vai em 4 – mais o sistema bancário espanhol – e não está dito nem escrito em lado algum que esse número não possa vir a aumentar. Face às expectativas criadas, ao trabalho que existe pela frente e às ameaças cada vez menos latentes e mais reais, esta voltou a ser uma Cimeira da desesperança. Mais uma oportunidade perdida.

No mundo global dos grandes espaços regionais e da superação das soberanias nacionais, corremos o risco sério de vivermos num continente – que criou e estruturou o ocidente em que se integra – que passará a contar muito pouco. Que se não souber resolver atempadamente os seus problemas, cedo se tornará dispensável. E é bom termos presente que o Mundo tem os olhos postos na Europa, sobretudo na Europa da União. Mas, seguramente, não vai ficar imóvel à espera que a Europa, e a sua dita União, resolvam os seus problemas.

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