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A baixa volatilidade está realmente justificada ou indica níveis preocupantes de complacência?


A baixa volatilidade tem sido uma constante nos mercados – especialmente nos mercados de ações, desde o início do ano. Ainda assim, tem-se acentuado nas últimas semanas, especialmente depois do resultado favorável aos mercados das últimas eleições francesas, até um ponto em que o VIX tocou mínimo inéditos dos últimos 25 anos. “Por agora, parece que os investidores estão ignorar eventos transitórios, como a agitação em Washington DC, como evidencia a extrema calma de mercado”, afirma a partir da BlackRock Russ Koesterich, gestor do fundo BGF Global Allocation (classificado com o Selo Blockbuster Funds People Portugal).

Koesterich afirma que “estando a volatilidade tão baixa, talvez os investidores queiram preparar-se para uma mudança de condições”. O especialista apoia esta afirmação com dados históricos procedentes do mercado de crédito, que detalha desta forma: “Os dados históricos que remetem a 1990 apontam uma forte relação entre os spreads de crédito e a rentabilidade do mercado de ações. Os spreads de crédito e os indicadores económicos avançados (representados pelo Índice de Atividade Nacional da Fed de Chicago) explicam cerca de 60% da variação do VIX”.

O gestor afirma que a volatilidade deveria estar baixa, porque os spreads se encontram atualmente à volta dos 360 pontos base e os indicadores avançados estão a sinalizar o crescimento económico acima da média. De facto, a volatilidade está precisamente abaixo do modelo aplicado pelo especialista, que sugere níveis a rondar os 15 pontos base, face aos 10,41 com que o VIX fechou o mês de maio.

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Neste contexto, Koesterich diz que “enquanto os mercados de crédito continuarem a encarar com calma as notícias de Washington e os indicadores económicos continuarem estáveis, pode ser que os investidores acionistas continuem a desfrutar de um mercado feliz”. No entanto, o gestor considera mais realista que “este nível baixo de volatilidade está prestes a rebentar a qualquer momento”, pelo que optou por reduzir a exposição ao risco do seu fundo, realizando mais valias em algumas ações, reduzindo a exposição a dólares e adicionando títulos de tesouro e ouro à sua carteira.

Keit Wade, chefe economista da Schroders, questiona se estarão os investidores a ser complacentes, dado os níveis atuais do VIX. No entanto, como Koesterich, também Wade encontra algumas razões que poderiam explicar a ausência de volatilidade. Por exemplo, no campo da política monetária: “É certo que os Estados Unidos necessitam de aumentar as taxas de juro a um ritmo mais acelerado do que se espera atualmente no mercado. Ainda assim, mesmo que o façam, a liquidez global continuaria a ser abundante, porque os bancos centrais do Japão e da Europa continuam com os seus estímulos quantitativos”.

Por outro lado, Wade indica que se poderemos esperar que a inflação continue a ser um risco à medida que o ciclo económico avança, embora também recorda que “atualmente o crescimento salarial continua a estar presente na maior parte das grandes economias”. Este fenómeno explica-se, na sua opinião, pelo “incremento da competição num contexto de globalização, mas também pelo impacto das mudanças tecnológicas”.

Ainda assim, o economista afirma que, de um modo geral, “o mercado não é complacente”, embora, ao mesmo tempo, recorde “a escassez de ativos que são verdadeiramente um refúgio para investir”. Dado isto, constata que “a preferência dos investidores pelas partes defensivas e de maior qualidade do mercado de ações sugere um reconhecimento de que existem riscos no ambiente atual”. A atenção dos investidores também está centrada nas ações tecnológicas “como uma história de crescimento a longo prazo que, de alguma maneira, se mantém à margem dos fatores políticos ou macro de curto prazo”.

Razões de precaução

James Butterfill, responsável de análises e estratégias de investimento da ETF Securities, assume uma postura contrária: “O VIX está a manifestar atualmente uma completa ausência de medo. Salvo alguma subida repentina ocasional, este ano tem estado excecionalmente baixo. O nível médio do VIX em 2017 situa-se nos 5% mais baixos da história (desde 1991), situando-se o nível atual nos 1% mais baixos. Dado isto, o mínimo de 9,75 pontos deste ano terá sido o quinto mais baixo da história, um nível que tinha sido alcançado pela última vez em finais de 1993”. Para Butterfill, no contexto atual de agitação política, não se justificam uns níveis tão baixos, o que demonstra “um preocupante nível de complacência entre os investidores”, até ao ponto de muitos terem optado por tomar posições curtas.

A postura da ETF Securities é que o VIX “está a subestimar o risco”. De facto, o modelo do VIX usado pela empresa – que aplica uma combinação de dados do Índice Global de Interesse Financeiro e do Índice de Incerteza Económica dos Estados Unidos, também sugere que o indicador deveria estar à volta dos 15 pontos. “Acreditamos que esta disparidade terá sido em parte devido à instabilidade dos eventos macro”, indica Butterfill.

O especialista recorda que, historicamente, o VIX manteve uma baixa relação com o PER de ações norte americanas. No entanto, a correlação aumentou nos últimos dois anos, criando um efeito preocupante: “quanto mais diminui o VIX, maiores são as valorizações, implicando que os investidores compram ações devido à sua baixa volatilidade, e que estão felizes por pagar essas valorizações mais altas para o conseguir”. Como a postura da empresa é que o VIX está a subestimar o risco, Butterfill sentencia que esta dinâmica perversa “está a pôr os investidores acionistas numa posição vulnerável”.  

evdc

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