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30 anos APAF: Renovar a missão, num contexto mais desafiante


O mundo vive uma mudança acelerada em que a globalização de meios e a forma de interacção das empresas e dos seus agentes tem vindo necessariamente a alterar-se. O mercado de capitais não é exceção e, no jantar-debate de celebração dos 30 anos da APAF, ficou claro que hoje temos um mercado mais dinâmico, mais aberto, mais competitivo, mas também ele mais desafiante e mais difícil. A missão do analista financeiro mantém-se, desde a fundação desta Associação em 1984, e continua a ser a de alicerce do mercado de capitais e do próprio crescimento económico pelo impacto que a análise financeira tem na tomada de decisões de investimento e na formação de preços. Por isso, a ética na conduta do analista financeiro é cada vez mais determinante na sua atividade.

Neste sentido, Raul Marques, Presidente da APAF, abriu a conferência falando da importância da competência técnica destes profissionais e da missão da APAF de “diversificação do leque de certificações disponíveis, da aproximação da APAF às empresas  com o objectivo de dar resposta às necessidades destas”. Em Portugal, dada a existência de um tecido empresarial em que dominam as pequenas e médias empresas, muitas delas de cariz familiar, é imperativo facultar a análise financeira às PME’s como forma de as preparar para uma possível entrada no mercado de capitais. A importância da figura do analista está, então, associada a essa criação de valor e confiança com o investidor.

E o analista financeiro, quem é? A definição da APAF é abrangente e vai desde os analistas de ações ou obrigações numa entidade financeira ou gestora de ativos, ao CFO e respectivos elementos da equipa de uma empresa seja ela financeira ou não financeira, aos consultores de investimento, gestores, banqueiros.

Sem dúvida que a última grande crise, iniciada em 2007, vem alterar a forma de olhar para o analista financeiro e coloca-o como um pivô, designadamente pela descredibilização das agências de rating. Carlos Tavares, Presidente da CMVM, tem uma perspectiva mais pessimista no que refere ao actual  quadro económico e financeiro, e alerta para as dificuldades e desafios que existem na avaliação dos ativos e na formação do preço. Considera, portanto, determinante a actividade do analista financeiro neste campo, muito embora assuma que Portugal necessita criticamente de um mercado de capitais desenvolvido e de criar uma cultura de mercado de capitais como evidente alternativa ao financiamento bancário. O presidente do regulador referiu portanto que "as empresas não precisam de mais empréstimos, mas sim de mais capitalização". 

O Melhor e o pior

Artur Santos Silva, Carlos Rodrigues e Miguel Cadilhe foram os ilustres convidados da mesa redonda que salientaram o melhor e o pior no que se refere à análise financeira nas últimas três décadas. O presidente do conselho de administração do BPI iniciou com uma reflexão em tom histórico. “Se pensarmos que há trinta anos as taxas de juro ou de câmbio ou outros indicadores eram fixados pelo Banco de Portugal (BdP) e que o mercado de ações, em 1981, representava 1 milhão de dólares e existiam 25 empresas cotadas sendo que 21 eram dominadas pelo Estado, obviamente que a mudança está na abertura e modernização do mercado”. A partir de 1997, Portugal deixa de ser considerado mercado emergente e a análise passa a requerer maior profundidade, passa a ser mais bottom-up e, portanto, o papel do analista financeiro e a sua responsabilidade saem reforçados, referiu Artur Santos Silva. O seu homólogo do Banco BiG acrescenta a complementaridade necessária entre o analista e, nomeadamente, as agências de rating. Finalmente, no que se refere ao mercado de capitais, Miguel Cadilhe aponta como o melhor dos últimos trinta anos o início, quando o país estava sob a tutela do FMI e se desenrola todo o processo de privatizações das empresas e também a gradual desmaterialização do mercado de capitais. Esta traz, naturalmente, o pior destas três décadas. Artur Santos Silva identificou alguns dos piores aspectos do período como a “desadequação da governance de algumas empresas que entram no mercado, a falta de estrutura de capitais próprios e o excessivo endividamento da economia que aumentou exponencialmente nos anos pós adesão ao euro”.

Lições recentes

A tarefa do analista financeiro tem vindo a tornar-se mais desafiante porque se exige que seja cada vez mais imparcial e independente, mais responsabilizada, mais transparente e, por isso, os recentes acontecimentos no Banco Espírito Santo e também na Portugal Telecom foram o mote para Helena Garrido, diretora do Negócios, lançar a pergunta “quais as lições a retirar?

O presidente do conselho de administração do BPI enumera-as: “primeira ilação - não pode haver relações de crédito com acionistas de referência. Segunda conclusão: proibir o empréstimo de instrumentos de dívida de ações a acionistas de referência e, em terceiro lugar, proibir emprestar instrumentos do mercado de capital do próprio banco”. Salienta, ainda, a importância da supervisão prudencial, do papel dos elementos do Banco de Portugal que estão presentes nas instituições financeiras de forma a gerar mecanismos de co-responsabilização e que a crise financeira acarreta a necessidade de verdadeira definição das esferas de atuação das entidades reguladoras. Além disso, Carlos Rodrigues chama a atenção para o inevitável back to basis que é hoje quase imperativo numa lógica de simplicidade. Miguel Cadilhe conclui com um eventual quarto mandamento, em que desafia simultaneamente a APAF e as escolas de formação em análise financeira a fomentar este pilar na formação dos analistas financeiros, que se prende com “aspectos qualitativos e não matematismos”. “Mais do que nunca é muito importante o lado qualitativo da análise financeira. Respeitar o código de conduta e valores como o da honestidade, dignidade, integridade e imparcialidade”.

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